Nós, docentes, precisamos nos posicionar em relação ao uso da IA generativa. Conversamos com colegas de profissão e recebemos alguns convites para debater o uso pedagógico desse sistema com diferentes grupos de educadoras/es, o que nos deu acesso a outras formas de pensar e praticar o uso dessa tecnologia na educação, considerando diferentes realidades, desejos e receios. Realizamos algumas pesquisas de modo a aprofundar nossa compreensão sobre como professoras/es têm endereçado as questões relativas ao uso da IA generativa. Assim, obtivemos relatos de profissionais que lecionam em diferentes instituições (públicas e privadas), níveis (da educação infantil à pós-graduação) e modalidades (presencial, a distância e híbrida). Neste capítulo, apresentamos nossas compreensões tecidas a partir dessas conversas e relatos de diferentes subjetividades docentes em contextos diversos[1].
Como uma primeira ação para investigar o que outras/os docentes sentem e pensam sobre o uso da IA generativa na educação, no início de 2023, submetemos ao ChatGPT uma prova de Lógica de um curso de Filosofia de uma universidade pública. Algumas questões foram resolvidas corretamente, enquanto outras apresentaram erros; no total, a prova feita pelo ChatGPT receberia nota 5 (de 10) de acordo com o gabarito divulgado pelo professor. Essa prova foi dada para as/os estudantes realizarem ao longo de uma semana, pois a disciplina foi ofertada na modalidade remota, situação em que a instituição exigia avaliações assíncronas. A nota média da turma foi 6, sendo que seis das/os 21 estudantes que fizeram a prova obtiveram nota inferior a cinco. Se essas/es seis estudantes tivessem colado do ChatGPT, que já estava se popularizando à época, teriam sido aprovadas/os na disciplina. Agora que a IA generativa já está amplamente disseminada entre a estudantada, será que elas/es resistirão à tentação de consulta-la? Ao consultarem, farão uma cópia das respostas ou a utilizarão como apoio à aprendizagem e à autoria? Quando apresentamos os resultados ao professor da disciplina em questão, ele expressou sua preocupação com o plágio:
Isso [a IA generativa] me parecia, desde o primeiro momento, uma situação de potencial problema com respeito à educação. Na verdade, a internet como um todo já era um problema sem a inteligência artificial. O simples fato de fazer buscas na internet e fazer uma espécie de copy and paste do que foi encontrado e oferecer isso como resposta de provas e trabalhos que foram passados para casa já aconteceu comigo. Já zerei uma prova de Epistemologia porque a aluna fez toda a prova simplesmente fazendo copy and paste de um site da internet. Ela simplesmente juntou algumas coisas e respondeu. Eu zerei a prova e ela me perguntou por que eu tinha dado zero e eu expliquei: “porque você simplesmente copiou da internet”. E ela me respondeu, curiosamente, com uma pergunta: “mas o que tem de problema nisso?” Se alguém não vê problema nenhum em fazer copy and paste sem pensar a respeito, significa que se tem uma confusão entre o conhecimento epistêmico, que é você saber que sabe, e o saber informações, que não envolve um conhecimento epistêmico, um conhecimento de segunda ordem, um conhecimento superior. […] Isso vai de fato causar problemas como a internet já causava. Como a internet, ele [o ChatGPT] é factível de ser utilizado para resolver provas, principalmente provas que exijam ou que peçam tão somente o exercício de técnicas, como é o caso da segunda prova de Lógica e o finalzinho da primeira parte. Sendo submetido a questões mais sofisticadas, ele vai se embananar, certamente, como ele já se embananou em questões mais simples. […] De todo modo, de fato, se algum aluno respondesse usando o ChatGPT e me entregasse a prova, eu ficaria espantado com algumas coisas e não ficaria espantado com outras. […] Por ora, eu ainda estou “de pé atrás”, mas ainda não tomei nenhuma providência, especialmente se nós considerarmos esse tipo de modelo de prova remota que eu estou fazendo… se fosse presencial, a coisa se complicaria. Presencialmente, a prova é feita em duas horas e sem consulta, nem ao material próprio, nem obviamente ao colega; o estudante tem de se virar, ele não vai ter celular, não vai ter acesso a ChatGPT, nada. […] Mas você levantou um ponto interessante, que é esse tipo de avaliação remota, em que o aluno tem alguns dias para responder, obviamente, cada aluno pode pegar a prova e submeter ao ChatGPT (Professor de Lógica, transcrição de áudio enviado em mensagem particular via WhatsApp).
A maior parte das/os docentes, num primeiro momento, ficou temerosa com a novidade: “os alunos vão plagiar da IA”; “a IA fará os deveres de casa, as redações e os trabalhos escolares”, “os estudantes se tornarão pessoas acríticas, preguiçosas e dependentes da tecnologia”.
Com toda sinceridade, não sei como será feito o controle do uso dessa ferramenta, pois o plágio, por exemplo, já era difícil de controlar há um tempo, imagino que será ainda mais comum com o uso do ChatGPT (Professora do ensino fundamental e médio de escola pública).
Para aquele com mais dificuldade, desinteresse ou preguiçoso, o uso do ChatGPT pode se tornar uma bengala difícil de ser tirada (Professora de pós-graduação a distância em universidade pública).
Para quem sabe estudar, tem boa formação, não acumula deficiências de aprendizagem ao longo de toda a vida escolar, é uma ferramenta razoável de pesquisa. Mas, para o aluno com muitas deficiências e dificuldade de aprendizagem, é mais uma forma de fraude. Na hora de fraudar, ninguém tem dificuldade (Professora de universidade pública, atuante nas modalidades presencial e a distância).
Em algumas escolas e universidades internacionais, o uso da IA generativa chegou a ser proibido. Em nossa pesquisa, identificamos que algumas/uns docentes, se pudessem, também proibiriam as/os estudantes de utilizá-la:
Ainda não há maturidade para usar a ferramenta como meio de auxiliar o processo de ensino-aprendizagem. Essa IA, mal utilizada, pode atrapalhar o desenvolvimento do aluno na construção autônoma de trabalhos, nas respostas discursivas e construções críticas (Professor do ensino médio e fundamental).
Algumas/uns docentes consideram que a IA generativa está distante de seu cotidiano escolar:
Seria interessante o uso, porém nas minhas escolas não têm estrutura tecnológica para tal (Professor atuante no ensino fundamental em escola pública).
Como não utilizo, não é algo que eu tenho pensado (Professor de graduação de universidade pública presencial).
Alguns fatores podem dificultar o uso pedagógico das tecnologias digitais, como o número insuficiente de computadores por estudantes, a baixa velocidade de conexão à internet, e a falta de apoio pedagógico às/aos docentes (Cetic.br, 2023). Esses fatores podem levar professoras/es e gestoras/es a desistirem de trabalhar com as práticas ciberculturais de nosso tempo. Sabemos que a IA estará cada vez mais presente no trabalho e no cotidiano de todas/os nós; por isso, precisamos promover sua apropriação crítica, responsável e inventiva nas escolas e universidades. Não podemos aceitar que estudantes sejam privadas/os de estudar com o uso dos melhores recursos de aprendizagem de nosso tempo:
Dar autonomia para os alunos usarem essa ferramenta é um direito inegável. Já existe e é realidade. […] Precisamos de políticas públicas para fazer uma grande formação educacional de todos que estão no chão das escolas engajados com ensino e pesquisa para um melhor aproveitamento dessa nova ferramenta (Diego, professor de universidade particular presencial).
Impedir o uso de ferramentas como essa é um retrocesso (Mario, professor de ensino médio e graduação, presencial e a distância, em instituição pública).
Algumas/uns professoras/es consideram que o importante é aprender, seja com ou sem o uso da IA generativa: “Acho que pode ser usada, mas não é essencial nem importante. É apenas mais uma ferramenta”. Essa postura liberal pode resultar em problemas para a formação. Se a/o docente não repensar as atividades e os trabalhos escolares/universitários considerando a existência das tecnologias baseadas em IA generativa, dada a “lei do menor esforço”, muitas/os estudantes poderão apenas copiar as respostas geradas pela IA sem aprender o conteúdo nem desenvolver habilidades de resolução de problemas, pesquisa, crítica e avaliação.
O uso indiscriminado da IA generativa pode levar a uma geração de estudantes que simplesmente copia e cola informações, sem questionar ou produzir conhecimento a partir delas. É necessário incentivar a reflexão e o pensamento crítico para que os alunos possam utilizar a IA de forma responsável e como uma ferramenta complementar ao processo de aprendizagem. Acho que deve ser apresentada como uma ferramenta cujos resultados precisam ser criticados antes de utilizados. Recomendo aos alunos sempre analisar as respostas da IA antes de aplicarem a algum projeto (Ygor, professor do ensino médio de uma instituição pública).
Após o lançamento do ChatGPT, algumas publicações apresentaram um discurso demasiadamente entusiasmado, tecno-utópico, chegando a afirmar que a IA nos libertaria de todo trabalho, proporcionaria uma governança sábia e resolveria a crise climática (Klein, 2023). A visão excessivamente positiva da tecnologia, como se ela pudesse resolver os problemas complexos de nossa vida em sociedade, da escola ou da universidade, num otimismo ingênuo, é uma posição extremada que não costuma ser compartilhada pelas/os professoras/es.
Acho importante a experimentação, no entanto acompanhada de um senso crítico a respeito da validade das respostas geradas, bem como análise da abrangência e profundidade das interações. Em alguns momentos, levei uma questão para sala de aula para os alunos observarem a resposta da ferramenta. Aproveitei questões geradas pelo ChatGPT adicionando-as em uma das avaliações (Reinaldo, professor de universidade pública presencial).
Acho importante que usem e saibam usar muito bem. O ChatGPT e similares vieram para ficar e saber usá-lo da melhor forma é fundamental em termos práticos (habilidade para o trabalho, por exemplo) e como forma de tirar o melhor proveito e de se proteger contra usos errôneos ou uso indevido por parte da própria pessoa ou de outros (ter capacidade crítica no uso da ferramenta e no que ela entrega). Em particular, fiz um curso de 4 aulas sobre o ChatGPT justamente para saber lidar melhor com a ferramenta (Professora de pós-graduação a distância em universidade pública).
Muitas/os docentes têm um posicionamento cauteloso e crítico em relação ao uso da IA na educação. Algumas/uns se preocupam com a capacidade das grandes empresas em disseminar tecnologias que influenciam nossos cotidianos:
Usar ou não usar as IAs? Estamos falando principalmente dessas que são apresentadas pelas Big Techs… Não tem como negar que elas estão disponíveis e as pessoas vão usar. […] Essas tecnologias estão cada vez mais presentes, e parece que não é uma alternativa simplesmente recusar o seu uso, porque nossos estudantes vão usá-las. Realmente essas gigantes da tecnologia têm um espaço, um território, que não nos dá muitas alternativas para simplesmente negar que existem ou simplesmente recusar a sua utilização. Existe também uma narrativa muito forte sobre a inevitabilidade de usar todas essas tecnologias, nos empurrar as coisas como elementos que simplesmente estão aí e a gente deve praticar os seus usos e nunca indagar a razão das coisas. Aí entra o Paulo Freire, para quem a questão do conhecimento é, sobretudo, desvelar a sua existência, ou seja, é preciso saber a razão de ser daquilo. Porque se isso não for colocado em questão, então aí nós seremos obedientes a essas grandes empresas, que já controlam completamente a nossa vida. […] Usar essas tecnologias, mas com qual propósito? A qual agenciamento político? Eu recuso totalmente essa ideia de que existe um mundo maravilhoso da tecnologia que nos alcança e que a gente sai usando simplesmente como mais uma novidade que parece que vai facilitar a nossa vida ou tornar a nossa vida mais agradável. E eu acho que é bem o contrário disso, né? Eu desconfio quando tudo isso é apresentado sem uma visão crítica, como se fosse algo que a gente simplesmente deve aderir e não se perguntar o que está acontecendo. Então essa é a minha crítica de fundo: o que está acontecendo? O que significa? Para onde nós estamos indo? Eu acho que a resposta não é boa… O desafio para os educadores críticos diante desse quadro tão devastador é: como correr riscos? Risco é uma palavra importante no pensamento de Paulo Freire e, principalmente, do último Paulo Freire. Como correr esses riscos? Eu não tenho resposta e desconfio de quem tem. Interagir com essas ferramentas é correr um risco, e o risco faz parte da luta. Agora: qual luta, o que nós estamos lutando, na verdade? Como essas tecnologias podem estar articuladas? Há movimentos sociais? Há processos de emancipação? […] Esse inventário não pode deixar de ser feito. (Aristóteles, professor em universidade pública presencial).
Se é fato que, em nosso país, a maioria das/os estudantes do ensino médio e superior usa frequentemente a IA generativa, então negar essa realidade, ignorar, invisibilizar ou tentar impedir seu uso não são possibilidades viáveis. A IA generativa tornou-se um fenômeno cultural e vem reconfigurando o acesso e a produção de conhecimento; não utilizar essa tecnologia na educação pública contribuirá para o aprofundamento das desigualdades em nosso país. A educação não pode permanecer a mesma depois de sua chegada:
Algo deve ser feito urgentemente e, para começar, professores devem ser induzidos a ter domínio sobre o ChatGPT. Em particular, acho que o ChatGPT tem como positivo o fato de obrigar os professores a mudar a forma de avaliação, evitando trabalhos que sejam mais mecânicos (fazer uma pesquisa sobre o assunto tal) e pedindo aqueles mais difíceis de serem copiados/feitos no automático, por exemplo, promovendo uma maior autoria dos alunos nos trabalhos, que eles tragam mais o que eles vivenciam e têm experiência (Professora de pós-graduação de universidade pública).
Os depoimentos aqui analisados ilustram a diversidade de desejos, preocupações e posicionamentos de docentes em relação ao uso pedagógico da IA generativa. Essa diversidade reflete as diferentes formas de nos relacionarmos com a IA generativa. Algumas pessoas focam nos riscos; outras, nas potencialidades. Umas nunca a utilizaram; outras a utilizam diariamente. O posicionamento docente depende dessas experiências, do repertório prático e teórico, dos posicionamentos políticos, entre outros fatores.
Como um esforço de abstração e síntese, reconhecemos cinco perfis em relação ao uso (ou não-uso) dessa tecnologia:
Fonte: dos autores, ilustração de Mônica Lopes
Esperamos que você perceba que nosso texto não é uma apologia à IA generativa. Enquanto professores, nos reconhecemos como entusiastas-críticos: buscamos identificar o potencial pedagógico das tecnologias generativas compreendendo também os riscos que elas representam para a Educação. Concordamos com a professora que afirmou: “Não devemos conceber a IA como uma tecnologia negativa e nem substituta do pensamento e raciocínio humano, e sim como potencializadora da nossa inteligência e capacidade cognitiva”.
Em meados de 2023, investigamos os usos que docentes de uma universidade particular faziam da IA generativa. A maioria nunca havia usado ou havia usado apenas uma ou poucas vezes, o que contrastava com a realidade das/os estudantes universitárias/os à época, cuja maioria já a utilizava com frequência nas atividades acadêmicas.
Fonte: dos autores
Nos dois anos seguintes, esse cenário se transformou de maneira significativa. Uma pesquisa global identificou que, em 2025, 61% das/os professoras/es universitárias/os já utilizavam IA em suas práticas de ensino (Digital […], 2025). No contexto da educação básica, 59% das/os docentes relataram o uso de IA em atividades educacionais em 2024 (Cetic.br, 2025). Resultado semelhante foi constatado na pesquisa internacional da OCDE (2025): 56% das/os docentes da escola básica brasileira utilizaram IA em seu trabalho durante o ano de 2024, percentual superior à média global (36%). Esses dados evidenciam que a IA tem sido amplamente incorporada ao contexto educacional brasileiro.
Fonte: OCDE (2025)
A maioria das/os professoras/es da escola básica brasileira que utilizam IA declarou empregá-la para gerar planos de aula e atividades para as/os estudantes, ajustar automaticamente o nível de dificuldade dos conteúdos de acordo com as necessidades de aprendizagem das/os estudantes, e aprender sobre temas ou resumir conteúdos de forma eficiente. Muitas/os docentes também afirmaram ter utilizado a IA para analisar dados sobre a participação ou o desempenho estudantil, gerar textos para feedback às/aos alunas/os ou comunicação com pais/mães ou responsáveis, e avaliar ou corrigir trabalhos de estudantes.
Fonte: OCDE (2025)
Entre as/os docentes que relataram não ter utilizado IA em suas práticas pedagógicas, a maioria afirmou não possuir o conhecimento e as habilidades necessárias para ensinar com IA, além de apontar que suas escolas não dispõem de infraestrutura adequada para essa finalidade.
Fonte: OCDE (2025)
Se, em 2023, a IA generativa ainda parecia uma novidade distante da prática docente, em 2024 e 2025 ela se consolidou como uma tecnologia presente no cotidiano educacional, utilizada pela maioria das/os professoras/es tanto do ensino superior quanto da educação básica. O crescimento acelerado do uso de IA por docentes e estudantes reforça a urgência de políticas e iniciativas institucionais de formação docente que promovam não apenas a apropriação técnica, mas também a reflexão sobre as implicações pedagógicas, éticas e sociais da IA generativa, conforme discutiremos no próximo capítulo. Nesse sentido, este livro se apresenta como uma referência para cursos de formação inicial e continuada, oferecendo orientações práticas, fundamentos teóricos e técnicos, além de perspectivas críticas que possibilitam uma integração responsável e inventiva da IA generativa na educação.
[1] Algumas/uns docentes preferiram o anonimato e, por isso, nas transcrições que apresentamos neste capítulo, omitimos o nome ou utilizamos um pseudônimo qualquer; outras/os preferiram que o nome verdadeiro fosse registrado em seus relatos para que a autoria fosse reconhecida.