1. A era da IA generativa: quais as implicações para a educação?

O ChatGPT (do inglês Chat Generative Pre-trained Transformer), lançado em 30 de novembro de 2022, teve uma ascensão meteórica em popularidade: alcançou 1 milhão de usuárias/os após cinco dias de seu lançamento e mais de 100 milhões após dois meses. Seu rápido crescimento de popularidade ultrapassou todos os recordes anteriores da história da internet: o Facebook levou quase cinco anos para atingir 100 milhões de usuárias/os, o Instagram demorou dois anos e meio, e o TikTok levou nove meses (Hu, 2023).

Nós, autores deste livro, conhecemos o ChatGPT no início de 2023 por meio de estudantes de Computação, que falavam dele com muito entusiasmo e preocupação. Rapidamente entendemos que estávamos diante do fenômeno mais importante da cibercultura dos últimos tempos, com maior potencial para transformar as práticas de aprendizagem e de ensino.

Como pesquisadores, é nosso trabalho experienciar o fenômeno com todos os sentidos, mergulhando inteiramente em outras lógicas para tentar compreendê-lo (Alves, 2001). Para nós, havia se tornado urgente acompanhar as implicações e teorizar o uso da IA generativa na educação. Começamos investigando como esse fenômeno se apresentava a nós, como essa tecnologia poderia ser útil em nosso cotidiano como aprendentes, professores, pesquisadores e autores. Em seguida, passamos a analisar como estudantes e colegas docentes estavam se relacionando com essa e outras tecnologias generativas.

As pessoas estão falando tanta besteira sobre o ChatGPT, IA. […] Importante “usar” no sentido de uso cultural mesmo, conversar com especialistas e ler autores autorizados. O que custa estudar? Reconhecer que “não sabe” também é honestidade intelectual. […] Mas a crítica sem anunciação permanece. Dizer que ChatGPT é um “papagaio”, por exemplo, é um absurdo completo. Dizer que ninguém faz a crítica, outro chavão. (Santos, 2023).

Ficamos encantados com as respostas do ChatGPT, muito superiores às de todos os chatbots que conhecíamos. O jornal The New York Times noticiou: “O ChatGPT é, simplesmente, o melhor chatbot de inteligência artificial já lançado para o público em geral” (Roose, 2022). Fomos percebendo que se tratava de uma tecnologia útil para apoiar a compreensão de conceitos, tirar dúvidas, resolver problemas, planejar aulas, desenvolver conteúdos didáticos, fornecer feedback sobre as atividades discentes, analisar dados, escrever, revisar, traduzir, entre muitas outras atividades intelectuais do nosso cotidiano acadêmico.

Com a popularização das tecnologias baseadas em IA generativa, tivemos que rever os trabalhos que pedíamos às/aos nossas/os estudantes de graduação e pós-graduação, porque essas tecnologias realizam diversas atividades de maneira satisfatória. Nós, docentes, precisamos conversar muito sobre esses sistemas baseados em IA generativa:

Colegas de profissão,

Estou usando o ChatGPT todos os dias; viciei, uso-o mais que o mecanismo de busca do Google e o Google Acadêmico. Estou utilizando-o para me ajudar a pesquisar, escrever, revisar os textos que escrevo, traduzir, criar slides para aulas, elaborar atividades, pedir síntese dos conceitos de uma área etc. […] Ele é o assunto do momento na Educação porque nos obriga a rever todos os trabalhos e avaliações que passamos “para casa”. Você já fez o ChatGPT resolver os exercícios que passa para suas/seus alunas/os? (Pimentel, 2023)

A aprendizagem profunda (deep learning) é a técnica que possibilitou os avanços significativos da IA. Inicialmente, essa técnica foi empregada para a geração de imagens a partir de descrições textuais. Em 2022, os modelos de texto-para-imagem mais avançados tornaram-se capazes de gerar imagens que se assemelham a fotografias reais e a obras de arte feitas por seres humanos. Um exemplo que viralizou foi a série de imagens do Papa Francisco vestindo um casaco branco estiloso, geradas pelo Midjourney .

O look estiloso do papa Francisco: imagens geradas por IA
O look estiloso do papa Francisco: imagens geradas por IAO look estiloso do papa Francisco: imagens geradas por IAO look estiloso do papa Francisco: imagens geradas por IAO look estiloso do papa Francisco: imagens geradas por IA

Fonte: https://www.reddit.com/r/midjourney/comments/120vhdc/the_pope_drip

Muitas pessoas acreditaram que essas imagens eram fotografias reais, embora a Igreja Católica seja bastante conservadora em suas vestimentas. Essas imagens divulgaram o potencial e o perigo das tecnologias generativas de imagem: qualquer pessoa agora consegue criar imagens e vídeos convincentes a partir de descrições textuais, podendo facilmente produzir conteúdos com o objetivo de enganar (deepfake).

Posteriormente, conseguiram empregar a aprendizagem profunda para gerar textos, o que levou à construção de modelos de linguagem de grande escala (Large Language Models – LLMs), como o GPT. O estrondoso sucesso do ChatGPT desencadeou uma corrida entre empresas de tecnologia para desenvolver os melhores modelos e sistemas baseados em IA generativa. A Microsoft passou a integrar o GPT em seu sistema Copilot após investir mais de 10 bilhões de dólares na OpenAI, tornando-se sua principal acionista com 49% de participação (Hoffman; Albergotti, 2023). Em resposta ao ChatGPT, o Google lançou o chatbot Bard em março de 2023, posteriormente rebatizado como Gemini. A empresa Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, lançou o LLaMa em 2023 e, em 2024, lançou a Meta AI, que foi integrada aos seus sistemas. A empresa xAI, fundada por Elon Musk, lançou o chatbot Grok em 2023, que foi integrado ao X (antigo Twitter). A Anthropic, fundada por ex-funcionárias/os da OpenAI, lançou o Claude em 2023. Em 10 de janeiro de 2025, a China lançou o chatbot DeepSeek, um concorrente à altura do ChatGPT, mas com custos de desenvolvimento muito menores. Esse evento abalou a liderança dos EUA no setor de IA e provocou uma queda acentuada nas ações de empresas estadunidenses de tecnologia. Semanas depois, no final de janeiro de 2025, a empresa Alibaba, também da China, lançou o modelo Qwen 2.5-Max, tão ou mais poderoso que o DeepSeek e a versão gratuita do ChatGPT. Estava declarada a guerra tecnológica entre as superpotências para definir quem se tornará a líder mundial em IA.

Os anos em torno da virada para a década de 2020 marcaram o Boom da IA (AI Boom, s.d.), que trouxe impactos culturais, econômicos, políticos e sociais. Esse novo cenário sociotécnico, marcado principalmente pelo lançamento do ChatGPT, nos faz reconhecer que, em termos tecnológicos, 2020 é a década da IA generativa. Ela se tornou um fenômeno cultural; o Brasil se tornou o quarto país que mais utiliza o ChatGPT (Forbes, 2024). O mundo sem IA generativa é coisa do passado.

Tecnologias computacionais que marcaram as décadas

Fonte: dos autores

Os modelos e os sistemas computacionais baseados em IA generativa estão reconfigurando as práticas de trabalho; afetaram as profissões que lidam com texto, como ensino, pesquisa, programação, jornalismo, direito, tradução, atendimento, entre outras; bem como aquelas que lidam com imagem, como design e artes visuais. Com a melhoria contínua da capacidade da IA de gerar conteúdos de qualidade e lidar com múltiplas linguagens, sua presença se expandirá ainda mais, transformando todas as profissões intelectuais a curto e médio prazo.

Rapidamente passamos a ter uma certeza: “O ChatGPT e outras inteligências artificiais generativas, no ensino superior, vieram para ficar” (Correia, 2023). Em meados de 2023, a maioria das/os estudantes universitárias/os já utilizava a IA generativa com frequência em diversas atividades acadêmicas (Chegg.org, 2023). As práticas de aprendizagem já haviam sido reconfiguradas.

O que nos cabe, como professoras/es, é refletir sobre a intencionalidade pedagógica e a ética no uso das tecnologias generativas. Considerando que a cibercultura nos inspira a (re)pensar nossas práticas didático-pedagógicas (Santos, 2005), iniciamos o semestre letivo de 2023 conversando com nossas turmas sobre como poderíamos usar essas tecnologias em nossas disciplinas considerando-as aliadas e não substitutas de nossa inteligência. Desde então, temos empreendido esforços para compreender como integrá-las em nossas aulas.

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