7. Formação docente para o uso de IA generativa

Precisamos investir na formação docente para não sermos indiferentes, temerosas/os ou negacionistas em relação ao uso pedagógico da IA generativa, nem sermos entusiastas acríticas/os, seduzidas/os pelo canto dessa sereia tecnológica, iludidas/os por falsas promessas de um atalho para uma educação melhor. Precisamos de políticas públicas de formação para o uso pedagógico das tecnologias digitais (e não apenas da IA generativa), em todos os níveis de ensino e ao longo de toda a vida.

Compreendendo essa necessidade, temos realizado aulas, palestras, oficinas e cursos de formação continuada de professoras/es. O conhecimento teórico e aplicado das tecnologias generativas afeta diretamente seus saberes, suas práticas de ensino, a interação com as/os alunas/os e a tecedura de conhecimentos. Conhecer uma tecnologia generativa nem sempre é suficiente para sua apropriação pedagógica, mas certamente é um passo importante, como relatou um professor do ensino médio que participou de uma de nossas aulas:

Esse relato tem como propósito refletir sobre uma transformação recente e significativa ocorrida em minha prática como docente e como pesquisador a partir do momento em que entrei em contato com o ChatGPT através de uma aula na disciplina Docência e Teorias Pedagógicas. […] Durante essa aula, o professor acessou o ChatGPT conosco e assim eu pude utilizá-lo pela primeira vez. Enquanto eu via a explicação do professor, aconteceu o mesmo que já havia ocorrido comigo no primeiro dia da primeira aula de Filosofia que tive na faculdade, há 20 anos (sou graduado em Filosofia): o Thauma enquanto Pathós. Explico: para os pré-socráticos, o Thauma seria essa sensação de maravilhamento/estranhamento; e o Pathós, o uso dessa sensação como impulsionamento para algo. No meu caso, esse susto e esse despertar que ocorreram na aula do professor Mariano, desde então, têm me impulsionado ainda mais para a pesquisa, para a leitura, reflexão e prática. […] Depois de muito testar o ChatGPT, concordo com o professor quando afirma que a IA é um coautor e não substitui nosso próprio conhecimento e expertise como pesquisadores [e professores]. Podemos sim utilizá-lo como uma fonte adicional de informações e ideias, entretanto devemos sempre avaliar criticamente as respostas geradas pelo modelo. […] Desde que iniciei a utilização da IA como ferramenta de suporte, tem sido uma experiência enriquecedora em minha prática acadêmica. Ao unir o sentimento de maravilhamento despertado pelo aprendizado com a assistência dessa tecnologia, me sinto impulsionado a aprofundar minhas pesquisas.

Como fazer-pensar a formação docente em tempos de IA generativa? Compreendemos a formação docente em um sentido amplo, vista a partir da formação de si (reflexão sobre as experiências vividas e praticadas), com a/o outra/o (docentes e estudantes) e com as coisas (instituições, tecnologias e ambiente). A formação visa ao desenvolvimento do saber docente, que é um “saber plural, formado de diversos saberes provenientes das instituições de formação, da formação profissional, dos currículos e da prática cotidiana” (Tardif, 2002, p. 54). Uma formação para o uso pedagógico da IA generativa precisa abordar os riscos e as possibilidades que ela oferece para apoiar as/os estudantes a se relacionarem com essa tecnologia para o desenvolvimento intelectual sem perder a autonomia, a autoria e a criatividade.

Queremos aqui apresentar uma experiência de um curso de formação continuada de professoras/es em que utilizamos o presente livro como base para as aulas. O objetivo do curso foi desenvolver a competência para o uso pedagógico, ético, crítico e inventivo da IA generativa, promovendo saberes experienciais para a apropriação da IA generativa nas práticas didático-pedagógicas. Esses saberes podem resultar da construção individual e coletiva, que são partilhados, ressignificados e legitimados por meio dos processos de socialização profissional com outras/os professoras/es. Esse tipo de saber é incorporado pelas/os docentes por meio de experiências culturalmente situadas (na universidade, na escola, no curso de formação continuada etc.). Partimos da compreensão de que as/os professoras/es têm seus saberes didático-pedagógicos e, com o curso, buscamos ampliar tais saberes por meio da discussão do uso das tecnologias generativas na prática pedagógica.

O curso foi estruturado em 20 aulas, conforme a programação apresentada no quadro a seguir, distribuídas ao longo de 10 encontros remotos, cada um com duração de duas horas. Nessas aulas, foram abordadas, intercaladamente, as teorias e práticas discutidas neste livro. As aulas teóricas foram voltadas à discussão de conceitos, teorias, conhecimentos técnicos, princípios didático-pedagógicos e implicações da IA generativa para a educação e a sociedade. As aulas práticas foram planejadas como oficinas que visavam ao desenvolvimento de habilidades relacionadas ao uso das tecnologias generativas em práticas acadêmicas: ensinar, pesquisar, escrever, aprender e imaginar.

Programação do curso “IA generativa no Ensino Superior”
1. Apresentação do curso e do mediador
2. Cursistas se apresentam para a turma
AULAS TEÓRICAS
(aspectos técnicos e pedagógicos)
AULAS PRÁTICAS
(oficinas)
3. O que é Inteligência Artificial generativa (IAGen) 4. Oficina: “Olá mundo” da IAGen
5. Desmistificando a IAGen 6. Oficina: IAGen para escrever
7. A capacidade da IA de gerar boas respostas sobre conteúdos educacionais 8. Oficina: IAGen para estudar-aprender
9. Usos da IAGen por estudantes e professores 10. Oficina: IAGen para ensinar
11. Concepções pedagógicas do uso da IAGen na educação 12. Oficina: IAGen para pesquisar
13. IAGen como coautora 14. Oficina: IAGen para imaginar
15. IAGen como interlocutora 16. Oficina: Criando o próprio GPT
17. O futuro da IAGen
18. A educação do futuro
19 e 20. Apresentação da proposta de cada cursista de uma atividade didática com o uso de IAGen em uma disciplina que leciona

Fonte: dos autores

O curso foi ofertado para duas turmas em uma universidade pública em 2024, totalizando 60 docentes universitárias/os, sendo 41 mulheres e 19 homens. As/Os docentes atuavam em diferentes cursos, incluindo Educação, Psicologia, Antropologia, Direito, Economia, Administração, Computação, Engenharia, Matemática, Química, Medicina, Biologia, entre outros. Essa diversidade reflete a abrangência e a relevância do tema para múltiplas áreas do conhecimento.

Antes do início do curso, solicitamos às/aos professoras/es que refletissem e compartilhassem suas dúvidas, questões, inquietações, dilemas, receios e medos em relação às tecnologias baseadas em IA generativa. A temática mais recorrente nas narrativas das/os docentes foi o plágio associado à IA generativa e a violação da integridade acadêmica: “Acho que o meu maior medo é ver que os estudantes poderão fazer todo o seu trabalho escrito nesta ferramenta”; “O uso do plágio em trabalhos acadêmicos”; “A maior dúvida é o que envolve autoria e plágio”.

Outra preocupação apontada foi a confiabilidade e a precisão das informações geradas pela IA: “possíveis erros na geração de conteúdos por IA”; “a confiabilidade do texto gerado pela IA”. Um professor alertou sobre o “excesso de confiança de que a ferramenta sempre estará certa e com isso não perceber as alucinações”.

Muitas/os professoras/es manifestaram preocupações quanto ao desenvolvimento da autonomia intelectual das/os estudantes e à capacidade de pensar criticamente, temendo a dependência excessiva da tecnologia e o comprometimento do desenvolvimento de certas habilidades cognitivas: “Os alunos estão dependentes da IA, não conseguem escrever um parágrafo sem usá-la. E não vão aprender a escrever sem praticar. Também leem cada vez menos, contam com IA para resumir qualquer texto”; “Quais as consequências para a aprendizagem dos alunos?”; “A maioria dessas questões reside no uso ético da IA generativa no desenvolvimento da autonomia intelectual, tanto dos alunos como minha própria, de não ficar dependente das ferramentas e de cometer erros de avaliação por não saber discernir a respeito do resultado”.

As/Os docentes também expressaram preocupações em relação à sua própria atualização profissional, temendo tornarem-se obsoletas/os ou desatualizadas/os diante das novas tecnologias, especialmente em face das diferenças geracionais e do etarismo: “Medo de não saber utilizar IA e ficar obsoleta”; “Tenho preocupação com a obsolescência no meu próprio trabalho, particularmente pelo pouco domínio daquilo que a IA generativa disponibiliza; neste sentido, há também a questão da diferença geracional, em especial com os alunos de graduação e a comunicação a ser empreendida com eles”; “Só quero saber para utilizar e também poder ter um diálogo com os alunos, pois alguns acham que os professores são desatualizados, não quero ficar assim.”

Algumas/uns professoras/es reconheceram que as tecnologias generativas estão transformando as práticas de aprendizagem das/os estudantes, mas não sabem ao certo como se posicionar nesse novo cenário sociotécnico. Um professor mencionou o receio da substituição do trabalho docente: “A IA, para mim, ainda é uma ferramenta de trabalho que pode ser utilizada para aprimorar o aprendizado, porém, sem substituir o docente, como ouço em conversas com outros colegas”.

Algumas declarações trouxeram à tona reflexões mais amplas sobre o impacto negativo da IA generativa na sociedade e na educação: “muito receio sobre o futuro da humanidade”; “desemprego e ela dominar o mundo”; “automatização exagerada do pensamento”; “uso ético profissional e seus desdobramentos”; “precarização/comercialização do saber”.

Apesar dos receios, há um interesse evidente em compreender e saber utilizar a IA generativa em práticas educacionais. Muitas/os professoras/es demonstraram entusiasmo em explorar as potencialidades tecnológicas no processo de ensino-aprendizagem: “Estou com ótimas expectativas”; “vontade de usar corretamente”; “Minhas questões são mais relacionadas com as potencialidades que podemos extrair dessa ferramenta, de modo a torná-la útil no processo de aprendizado, de um modo construtivo”.

No início do curso, solicitamos que as/os professoras/es indicassem quais tecnologias generativas já haviam utilizado, a partir de uma lista com 10 sistemas conhecidos no contexto acadêmico da época. O ChatGPT era a tecnologia mais conhecida entre as/os professoras/es. Metade das/os respondentes (25/50) indicou ter usado o ChatGPT uma ou poucas vezes; 28% (14/50) já o utilizavam com frequência, várias vezes ou diariamente; e 22% (11/50) nunca haviam usado ou ouvido falar dele. A segunda tecnologia mais utilizada era o Gemini (26%, 13/50), seguida pelo Midjourney (14%, 7/50) e pelo DALL-E (12%, 6/50). As demais tecnologias listadas (ChatPDF, Mapify, AIVA, Perplexity.AI, Leonardo.AI, Deep Brain.AI) eram desconhecidas por quase todas/os, sendo que 90% (45/50) ou mais declararam nunca ter ouvido falar ou utilizado as demais tecnologias.

Ao questionarmos se já haviam usado o ChatGPT em alguma atividade com os estudantes, constatamos que apenas 16% (8/50) o haviam utilizado em pelo menos uma atividade. Quando questionamos se já haviam usado alguma outra tecnologia generativa além do ChatGPT em contextos pedagógicos, apenas 8% (4/50) responderam afirmativamente. Esses dados apontam que o uso pedagógico da IA generativa ainda era pouco difundido entre as/os professoras/es universitárias/os de nosso país.

Algumas/uns docentes admitiram não usar tecnologias generativas: “Tenho alguma resistência ao uso de IA no meu cotidiano e tento evitar”; “Usei uma ou duas vezes até hoje, por curiosidade”. Outras/os relataram já ter usado as tecnologias generativas apenas para fins pessoais ou profissionais: “Usei bem poucas vezes, basicamente para tradução de textos para o inglês ou só para melhorar a gramática do meu texto já em inglês”; “Utilizo para ajudar na pesquisa bibliográfica e para resumir longos textos”.

Quando solicitadas/os a descrever os usos que haviam feito da IA generativa no contexto educacional, a grande maioria assumiu não ter feito qualquer uso pedagógico: “Não utilizei”; “Não tenho usado”; “Nunca usei no contexto educacional”. A falta de familiaridade com a IA generativa pode ser atribuída a diversos fatores, como falta de conhecimento, resistência a novas tecnologias ou mesmo receio quanto aos impactos na aprendizagem.

Algumas/uns professoras/es já haviam usado as tecnologias generativas em práticas pedagógicas: “Já utilizei para elaborar questões sobre artigo científico escolhido”; “Na orientação, para apoiar alunos na elaboração de mapa mental e nas referências bibliográficas”; “Para dar ideias sobre temas a serem discutidos/desenvolvidos em pesquisa e/ou sala de aula”. Essas declarações ilustram algumas possibilidades de uso da IA generativa no processo didático-pedagógico do ensino superior.

As narrativas docentes abordaram diversas preocupações e expectativas, evidenciando a necessidade de uma formação que abordasse tanto os aspectos técnico-instrumentais das tecnologias generativas, quanto as apropriações pedagógicas, as questões éticas e as implicações para a sociedade. Essa análise reforçou a necessidade de uma formação que integrasse os aspectos práticos e teóricos da apropriação pedagógica das tecnologias generativas, visando possibilitar às/aos docentes sentirem-se seguras/os para elaborar práticas educacionais utilizando a IA generativa de forma ética e inventiva.

Após o término do curso, a universidade disponibilizou um questionário anônimo para que as/os professoras/es avaliassem o curso. Das/os 60 pessoas matriculadas, 18 responderam ao questionário. Essa avaliação buscou verificar se os objetivos do curso haviam sido alcançados, considerando as competências relacionadas ao uso da IA generativa que o curso pretendeu desenvolver.

Competências desenvolvidas para o uso de IA generativa
Competências desenvolvidas para o uso de IA generativa

Fonte: dos autores

Exceto por uma pessoa, todas/os concordaram, parcial ou totalmente, que adquiriram as competências cujo desenvolvimento foi proposto no curso. Esse resultado é bastante positivo, considerando que a maioria das/os professoras/es, antes do curso, pouco ou nunca havia utilizado o ChatGPT e outras tecnologias generativas. “Excelente curso […] Gostei muito, abriu muitas possibilidades, bastante material, debates e interações, ótimo conteúdo, de natureza transformadora”; “Muito bom, de grande valia”; “Curso muito bem estruturado e conduzido.”

Das 50 pessoas que iniciaram o curso, 44 (88%) o concluíram, apresentando alguma proposta de situação didática utilizando uma tecnologia generativa. Esse resultado indica que o curso contribuiu para a reinvenção das práticas docentes de muitas/os professoras/es. As propostas dessas/es docentes para o uso pedagógico da IA generativa muitas vezes visaram a: (1) integração criativa da IA generativa em diversas disciplinas e contextos formativos; (2) desenvolvimento do pensamento reflexivo, crítico e ético sobre a IA generativa; (3) promoção da cocriação entre alunas/os e IA. Essas propostas evidenciaram que as práticas didáticas dessas/es professoras/es já estavam sendo reconfiguradas.

Após o curso, as/os professoras/es reconheceram o potencial da IA generativa como recurso pedagógico; mudaram sua percepção sobre as tecnologias generativas na educação; compreenderam a importância de desenvolver a competência e o letramento para o uso pedagógico, responsável e inventivo da IA; reconheceram os desafios na integração da IA generativa no ensino superior; e valorizaram a formação continuada. Esses resultados indicam que algumas horas de oficinas práticas combinadas com discussões teóricas são suficientes para que a maioria das/os docentes se sinta confiante em utilizar a IA generativa em suas práticas pedagógicas.

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