Antes do ChatGPT, estávamos acostumadas/os com sistemas inteligentes capazes de realizar uma tarefa específica: jogar xadrez, traduzir um texto, reconhecer a digital, a face ou a fala humanas, recomendar sites, filmes ou produtos, entre outras funções. A IA generativa não se limita a uma única atividade, pois é capaz de produzir textos sobre praticamente qualquer assunto e em diversos formatos, além de gerar conteúdos em outras linguagens, como imagem, som e vídeo. Algumas/uns especialistas consideram que a IA generativa é avançada demais para ser classificada como um tipo de Inteligência Artificial Específica (ou Estreita, do inglês Narrow AI), que se restringe a uma única atividade. Contudo, ela ainda não é suficientemente avançada para ser considerada uma Inteligência Artificial Geral (do inglês Artificial General Intelligence), que seria uma forma avançada de IA, capaz de realizar qualquer atividade intelectual que uma pessoa consiga executar, compreendendo o contexto e agindo de maneira coerente, sem a necessidade de ter sido previamente programada ou treinada para aquela tarefa específica. Esse é o ponto que se deseja alcançar com a IA, mas ainda não chegamos lá.
Para nós, professoras/es, o importante é que somos capazes de propor inúmeras atividades didáticas com as tecnologias generativas. Não podemos, entretanto, dar “receitas prontas” de como utilizá-las pedagogicamente, pois cada docente inventa suas próprias práticas, cria diferentes situações de aprendizagem considerando a disciplina, a turma, o nível de ensino, a modalidade (presencial, a distância ou híbrida), suas crenças e valores pedagógicos, seus referenciais teóricos, suas experiências etc. Reconhecendo essa diversidade e a autonomia didática, o que podemos fazer é compartilhar nossas próprias práticas de uso da IA generativa com o objetivo de, talvez, inspirar outras/os docentes, assim como aprendemos com nossas/os colegas que compartilharam suas inventividades conosco.
Nós, autores deste livro, lecionamos na graduação e na pós-graduação em Computação e em Educação, além de atuarmos na formação inicial e continuada de professoras/es. Esse é o nosso lugar de fala. As atividades didáticas com o uso de tecnologias generativas, que aqui compartilhamos, foram pensadas e praticadas nesses contextos pedagógicos. No entanto, nossos exemplos e proposições podem ser úteis mesmo para quem leciona em outros cursos e níveis, pois servem de base para reflexões e adaptações em diferentes cotidianos educacionais.
Enquanto professores-pesquisadores-autores, sentimos que a IA generativa tem se mostrado útil para nos apoiar a aprender, ensinar, escrever, pesquisar e imaginar, conforme apresentamos a seguir.
4.1 – Para aprender e estudar
Utilizamos a IA generativa para aprender: conhecer diferentes assuntos, perguntar, pedir exemplos, tirar dúvidas, questionar determinadas afirmações, investigar etc. Por exemplo, quando perguntamos à IA generativa quais eram os conceitos-chave da Teoria Ator-Rede, ela elaborou um quadro com a definição dos principais termos; quando pedimos que explicasse as diferenças entre as teorias comportamentais e cognitivas, ela gerou uma caracterização resumida de cada teoria e apresentou as principais semelhanças e diferenças entre elas; quando desejamos investigar o significado ou a etimologia de uma palavra, perguntamos à IA e, somente quando necessário, consultamos outras fontes de informação.
Algumas/uns estudantes utilizam a IA generativa para apoiar os estudos. Por exemplo, pedem para ela dar uma aula sobre um assunto, criar um roteiro de estudo, elaborar um vídeo, podcast ou mapa mental sobre o conteúdo da disciplina, propor exercícios, corrigir os exercícios feitos, elaborar uma prova ou teste para que possam avaliar o próprio aprendizado, criar histórias relacionadas ao conteúdo em estudo etc. A IA gera conteúdo conforme as demandas da/o própria/o estudante, possibilitando uma aprendizagem conversada e contextualizada, o que vem modificando a rotina de estudo.
A IA generativa também tem modificado as práticas de leitura de textos. Algumas tecnologias possibilitam anexar um arquivo ao prompt ou um link para um conteúdo online, possibilitando à/ao usuária/o conversar sobre a obra com a IA, solicitar um resumo do texto, localizar trechos em que determinada temática foi abordada, pedir para listar os argumentos e o posicionamento defendido pelas/os autoras/es, responder a uma questão, entre outras tarefas.
Apesar do potencial para o estudo-aprendizagem, é preciso sempre desconfiar das respostas geradas pela IA, pois ela pode inventar definições, fornecer explicações equivocadas, “alucinar”. A maior preocupação das/os docentes é que estudantes solicitem que a IA faça as atividades por elas/es, entregando assim suas mentes e vozes para a inteligência artificial pensar e se expressar por elas/es. Essa atitude compromete a proposta de estudo-aprendizagem elaborada pela/o docente ou pelo material didático. Por isso, precisamos educar nossas/os estudantes para o uso responsável da IA generativa no contexto educacional.
4.2 – Para ensinar
A IA generativa tem se mostrado útil para nos apoiar no planejamento de aulas, na preparação de conteúdos, na síntese de textos, na estruturação de apresentações, na criação de slides, exemplos, casos, exercícios, questões para debate, dinâmicas colaborativas, jogos para o ensino-aprendizagem, entre outras atividades relacionadas ao trabalho docente. Obviamente, todos os conteúdos gerados precisam ser revisados e editados, pois podem conter erros ou não ser adequados ao contexto da turma.
A IA também é útil na elaboração de instrumentos de avaliação. Por exemplo, podemos solicitar que ela produza uma prova com questões de múltipla escolha para testar diferentes níveis de compreensão sobre um determinado assunto, avaliando desde o entendimento das noções fundamentais até a aplicação de conceitos em cenários complexos. Podemos anexar arquivos ao prompt e pedir que elabore questões discursivas relacionadas ao conteúdo abordado no documento anexado. Ela é capaz de gerar um gabarito comentado para as questões, como também critérios e rubricas de avaliação.
A IA generativa também pode ser utilizada para corrigir as respostas de estudantes, mas essa ação requer cuidado. Ela é útil para apoiar a correção de exercícios simples e sugerir revisões de redações e trabalhos, indicando o que corrigir ou aprimorar em determinado texto. Contudo, não recomendamos a completa automação da avaliação, pois esse processo precisa ser conduzido por professoras/es com experiência, conhecimento, discernimento e sensibilidade necessários para uma avaliação adequada, especialmente quando a resposta não pode ser julgada simplesmente como certa ou errada. A avaliação também pode envolver uma análise comparativa das respostas da turma, o que nem sempre é simples para a IA realizar. Em nossas experimentações até o presente momento, identificamos que ela pode ser útil nesse processo, mas ainda requer supervisão humana. A avaliação também não deve ser totalmente automatizada porque não se trata apenas da atribuição de notas a respostas, mas sim de um processo de acompanhamento da aprendizagem de cada estudante.
Pensamos o uso da IA generativa em uma relação de parceria, para expandir nossas capacidades intelectuais, jamais como substituição de nossa inteligência. Recusamos seu uso para substituir educadoras/es ou automatizar o processo de ensino, incluindo a avaliação da aprendizagem. Consideramos adequado seu emprego em processos de cocriação com seres humanos, servindo como apoio às diversas atividades do trabalho docente, ampliando nossa criatividade e aprimorando os processos de trabalho.
Em aulas presenciais, gostamos de usar a IA generativa como se fosse uma pessoa da turma. Quando fazemos uma pergunta e ninguém responde, ou quando há muita confusão nas respostas apresentadas por estudantes, repetimos a mesma pergunta para a IA e analisamos a resposta com a turma: o que está correto na resposta? Há algo errado? Algo ficou faltando? Que informações precisam ser verificadas? Refletimos sobre os pontos fortes e as eventuais lacunas ou imprecisões da resposta gerada. Esse tipo de tarefa contribui para o desenvolvimento da capacidade de avaliar criticamente a segurança das informações geradas e a veracidade dos dados, além de estimular a discussão sobre a autoridade e as fontes de informação.
Em nossos cursos de formação continuada, colegas professoras/es têm criado diversas situações didáticas interessantes com o uso de tecnologias generativas em diferentes contextos formativos. Por exemplo, um professor de Engenharia desenvolveu um roteiro de estudo contendo perguntas para que cada estudante iniciasse uma conversa com a IA, incentivando a aprendizagem por meio do inquérito. O objetivo desse professor era implementar uma sala de aula invertida, na qual a/o estudante primeiro aprende conversando com a IA e, depois, sistematiza os conhecimentos em aula.
No início de 2023, logo após o lançamento do ChatGPT, recebemos uma lista com “30 formas de utilizar o ChatGPT em aula” (Raulino; Ramos, 2023). Nos meses seguintes, acompanhamos uma enxurrada de sugestões e relatos sobre o uso da IA generativa em diferentes disciplinas, divulgados por meio de vídeos, postagens, artigos científicos, livros e outras fontes. Talvez você consiga encontrar alguém que já tenha compartilhado sugestões de uso da IA generativa na mesma disciplina e nível em que você leciona.
Quando perguntamos ao ChatGPT quais atividades didáticas poderiam ser realizadas com ele e quais eram suas potencialidades pedagógicas, ele listou algumas sugestões interessantes[1]. Nos cursos de formação continuada de professoras/es, temos constatado que conhecer alguns exemplos de uso pedagógico da IA generativa costuma ser suficiente para disparar a autoria docente. Quanto maior for o seu repertório, maior será o potencial para inventar novas formas de utilizar as tecnologias generativas em seu contexto educacional específico.
4.3 – Para escrever
A IA generativa reconfigurou nossas práticas de escrita. Antes dela, a escrita costumava ser um processo solitário; agora, escrevemos em parceria com a IA. O bloqueio criativo não existe mais: basta pedir para ela gerar um roteiro ou um primeiro rascunho do texto, e talvez um segundo, terceiro e quantos rascunhos mais forem necessários. As respostas geradas nos ajudam a refletir sobre o texto que desejamos tecer, fornecem ideias e diferentes pontos de vista que ampliam nossa criatividade.
Gostamos de pedir à IA que discorra sobre um assunto para avaliarmos outras possibilidades de abordagem. Às vezes, apresentamos apenas uma ideia ou argumento e solicitamos que ela construa um parágrafo sobre aquilo. Podemos pedir que complete uma frase ou um parágrafo que estamos escrevendo. Quando nos falta uma palavra, pedimos sugestões para preencher a lacuna deixada na frase.
Sempre utilizamos a IA para revisar nossos textos. Ela corrige erros ortográficos e gramaticais, oferece sugestões para melhoria da redação e, se solicitado, pode até propor revisões dos argumentos utilizados. Obviamente, não acatamos todas as sugestões, mas esse movimento nos ajuda a repensar o texto que desejamos tecer. Para o processo de revisão de texto, gostamos de utilizar o ChatGPT com a extensão do navegador editGPT, que nos possibilita visualizar o que foi cortado e o que foi acrescentado ao texto, auxiliando na tomada de decisão sobre as mudanças que queremos efetivar.
Há muitas formas de revisar um texto, e devemos especificar o tipo de revisão que a IA deve realizar: podemos demandar que corrija apenas os erros ortográficos e gramaticais, que simplifique a linguagem usando palavras mais comuns, que torne o texto mais formal e acadêmico, ou que faça uma reestruturação completa para torná-lo mais coerente e coeso, entre outras possibilidades. Por exemplo, solicitamos que a IA revisasse os textos deste livro garantindo o emprego da linguagem inclusiva de gênero com base em alguns exemplos que fornecemos: aluna/o, professor/a, algumas/uns, da/o usuária/o etc.
A IA generativa também é capaz de fazer boas traduções. Neste livro, traduzimos alguns trechos originalmente escritos em inglês, e a IA se mostrou muito útil para nos apoiar nessa atividade, quase sempre apresentando uma tradução melhor do que seríamos capazes de produzir. Apenas ocasionalmente tivemos que ajustar algo na tradução gerada. Quando ficávamos insatisfeitos com uma versão, pedíamos que a IA gerasse outra, e as diferentes opções nos ajudavam a decidir qual tradução considerávamos mais adequada. De tradutores, passamos a atuar como avaliadores ou curadores das melhores traduções feitas pela IA.
Temos orientado estudantes de graduação e pós-graduação a utilizar a IA generativa como uma parceira na escrita de textos acadêmicos, mas sem deixá-la pensar e escrever por elas/es. Recomendamos que primeiro escrevam suas próprias ideias, para só então trabalhar com a IA na melhoria da argumentação; e sugerimos que sempre revisem seus textos com a IA. Temos constatado uma melhora considerável nas produções de nossas/os orientandas/os.
4.4 – Para pesquisar
Certa vez, quando escrevíamos um artigo sobre o uso da IA por estudantes, decidimos incluir a declaração de um aluno que havia nos chamado a atenção: “Uso o Copilot, hoje codifico igual a um deus e aprendo demais com o GPT-4” (discutiremos essa declaração no próximo capítulo). Depois de elaborarmos algumas análises, resolvemos perguntar ao ChatGPT como interpretar aquele depoimento, o que estava subjacente ao discurso, o que o enunciado revelava de potência e quais eram os riscos associados àquela declaração. A análise gerada[2] nos surpreendeu, pois abordou aspectos pertinentes e trouxe reflexões que não havíamos considerado inicialmente. Foi assim que descobrimos que poderíamos utilizar a IA generativa para apoiar nossas pesquisas.
Além de auxiliar na etapa de escrita de artigos, a IA generativa também pode ser útil na elaboração do desenho da pesquisa, na curadoria de artigos para a revisão de literatura, na análise e comparação dos artigos selecionados, na construção de documentos auxiliares (como o projeto de pesquisa e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido), na elaboração de instrumentos de pesquisa (questionários e roteiros de entrevista), na análise de dados qualitativos e quantitativos, na visualização de dados, entre outras atividades. A IA generativa irá reconfigurar as práticas do fazer científico. Estamos acompanhando os avanços dessa tecnologia e o lançamento de sistemas específicos para apoiar a realização de pesquisas. Em breve, (quase) todas/os as/os pesquisadoras/es utilizarão essa tecnologia em seus cotidianos.
4.5 – Para imaginar
Imaginar vem do latim imaginari e significa formar uma imagem mentalmente. A IA generativa tem a capacidade de imaginar, de gerar imagens computacionalmente. No contexto educacional, a geração de imagens pode ser útil para ilustrar uma apresentação, representar um conceito, criar personagens e cenas de uma história, ilustrar um meme, entre outras produções visuais de interesse de estudantes, docentes e conteudistas.
A OpenAI, antes de lançar o ChatGPT, lançou o DALL-E: “um sistema de IA que pode criar imagens e arte realistas a partir de uma descrição em linguagem natural” (DALL-E 2, s.d., tradução nossa). Com uma interface simples, a/o usuária/o descreve uma cena e a IA gera uma imagem. Nunca havíamos visto um sistema com essa capacidade. Em outubro de 2023, foi lançada a versão DALL-E 3, que apresentou uma “significativa melhora em relação ao DALL-E 2” (OpenAI, 2023j), sendo capaz de gerar imagens comparáveis às do Midjourney, que era o modelo mais avançado de geração de imagens à época. Essa versão foi integrada ao GPT-4 e disponibilizada gratuitamente no Copilot da Microsoft. Em maio de 2024, essa tecnologia ficou disponível no GPT-4o, de uso gratuito limitado, que “aceita como entrada qualquer combinação de texto, áudio, imagem e vídeo e gera qualquer combinação de saídas de texto, áudio e imagem.” (OpenAI, 2024c, tradução nossa)
Para exemplificar essa capacidade, digitamos no prompt do GPT-4o: “Crie uma imagem sobre Educação e Inteligência Artificial”. O GPT gerou a imagem apresentada a seguir:
[ChatGPT] Aqui está a imagem que você solicitou sobre Educação e Inteligência Artificial. Ela mostra uma sala de aula moderna onde os alunos interagem com ferramentas alimentadas por IA, exibindo um ambiente futurista e realista que destaca como a IA aprimora a experiência educacional.
Fonte: criado com GPT-4o (OpenAI, 2025f)
Uma atividade que gostamos de realizar em nossos contextos formativos é analisar criticamente a imagem gerada pela IA. Por exemplo, sobre a figura anterior, devemos questionar: será que o futuro da educação é a substituição de professoras/es por inteligência artificial (representada pela ausência de uma pessoa adulta na sala de aula e com um robô em seu lugar)? Na educação do futuro, ainda haverá sala de aula física? A aula típica ainda será expositiva (representada por um quadro digital ocupando quase toda a parede da sala e com todas as crianças voltadas para as telas)? Estudantes vão interagir predominantemente com a inteligência artificial e com o conteúdo didático, sem conversarem entre si? Ainda será valorizada a assimilação de conteúdos descontextualizados (educação bancária)? As cores das crianças nesta sala refletem a diversidade racial de nosso país?
O prompt utilizado para gerar a imagem anterior exemplifica a entrega de nossa mente à IA para que ela pense por nós, pois deixamos que a máquina imagine como será a Educação em tempos de IA generativa. Consideramos mais adequado primeiro imaginarmos, nós mesmas/os, como será o futuro da educação, para então descrevermos uma cena que a IA transformará em imagem; assim, a autoria da cena é nossa e utilizamos a IA como técnica de execução da obra, sem terceirizarmos nossa imaginação.
Por exemplo, podemos imaginar um futuro distópico em que a riqueza se concentrou nas mãos de uma elite super-rica, enquanto o restante da população empobreceu progressivamente — cenário coerente com o Índice de Gini que posiciona o Brasil entre os países mais desiguais do planeta. Nesse futuro, a IA passou a realizar todo tipo de trabalho e as pessoas tornaram-se “inúteis” para o capitalismo. O Estado instituiu uma renda básica universal mínima, suficiente apenas para assegurar a sobrevivência familiar. A precarização generalizada alcançou também a educação: as aulas deixaram de ser mediadas por docentes humanas/os e passaram a ocorrer por meio de avatares gerados por IA generativa, projetados por dispositivos holográficos fornecidos pelo governo. Essa solução ofereceu escala e padronização, acompanhada de um controle estatal rígido sobre os currículos, eliminando a diversidade pedagógica e restringindo o diálogo. Em lugar da construção coletiva de saberes, instituiu-se uma experiência unidirecional, desenhada para evitar questionamentos e manter a população em estado de conformismo. Sem trabalho formal, os pais cuidam da casa e da trajetória escolar das crianças. Imaginando esse futuro distópico, escrevemos o prompt a seguir:
Prompt: “Crie uma imagem fotográfica representando uma menina brasileira em uma casa muito pobre, olhando para um holograma que projeta um avatar de professor. Também são projetados outros estudantes, como se estivessem juntos no espaço virtual compartilhado. O pai da criança participa com ela da aula virtual dando apoio para a aprendizagem, enquanto a mãe está cozinhando.”
Fonte: criado com GPT-4o (OpenAI, 2025m)
Também podemos imaginar outro futuro possível, orientado por ideais de justiça social, inclusão e formação integral, em que a riqueza nacional encontra-se melhor distribuída e o Estado garante o direito à educação com equidade e qualidade para todas as pessoas. Nesse cenário, a escola é valorizada como espaço coletivo de criação de conhecimento, convivência democrática e desenvolvimento humano. As salas de aula são ambientes amplos, colaborativos e bem equipados, onde diferentes tecnologias são utilizadas criticamente para ampliar a criatividade, a autoria e a capacidade de resolução de problemas. Professoras/es são profissionais bem formadas/os e valorizadas/os, que atuam em parceria com as/os estudantes e com elas/es estabelecem uma relação dialógica. Estas/es, por sua vez, trabalham em grupo, compartilham saberes, desenvolvem projetos e aprendem com autonomia e colaboração. Nesse cenário, a IA não substitui educadoras/es nem homogeneíza o ensino, mas é integrada à formação de modo a ampliar as possibilidades de aprendizagem sem eliminar a dimensão humana da educação. Imaginando esse futuro esperançoso, descrevemos a seguinte cena para a IA criar uma imagem:
Prompt: “Crie uma imagem fotográfica representando uma sala de aula muito ampla que é uma sala maker, com quatro grupos de crianças brasileiras reunidas em mesas redondas estudando juntas e construindo um robô, com equipamentos sobre a mesa e dispositivos computacionais, incluindo laptop e tablet, e com um professor e uma professora dando assistência, todos conversando entre si.”
Fonte: criado com GPT-4o (OpenAI, 2025m)
Esse exercício de criação de prompts para gerar imagens nos convida a uma reflexão: não devemos entregar nossa imaginação à IA, permitindo que ela pense por nós, seja sobre o futuro da educação ou qualquer outra temática. Defendemos o estabelecimento de uma parceria em que a IA atua como uma interlocutora que nos escuta, sugere e provoca, nos ajudando a refletir sobre o conteúdo que desejamos produzir. Essa relação conversacional para a cocriação de conteúdos favorece o amadurecimento de nossas ideias e a tomada de decisões mais conscientes sobre o que queremos representar. Não é formativo utilizar a IA como substituta de nossa imaginação, mas o é se a tomamos como uma aliada na realização das imagens.
Além da capacidade de gerar imagens e textos, a IA também pode lidar com outras linguagens, como sons, vídeos[3], podcasts, mapas mentais, histórias em quadrinhos, imagens em 3D etc. A multimodalidade e as múltiplas linguagens ampliam muito as possibilidades de uso das tecnologias generativas no cotidiano educacional.
4.6 – Personalizando a IA generativa
É possível criar versões personalizadas de alguns modelos de linguagem. A empresa OpenAI possibilita construir os chamados GPTs:
Os GPTs são uma nova maneira para qualquer pessoa criar uma versão personalizada do ChatGPT para torná-lo mais útil em sua vida diária, em tarefas específicas, no trabalho ou em casa – e depois compartilhar essa criação com outras pessoas. Por exemplo, os GPTs podem ajudar a aprender as regras de qualquer jogo de tabuleiro, ensinar matemática a seus filhos ou criar adesivos (OpenAI, 2023j, n. p., tradução nossa).
A empresa Google também tornou possível criar customizações do modelo Gemini, os chamados Gems:
Os Gems são seus especialistas de IA personalizados que ajudam com qualquer assunto. Eles podem agir como um consultor de carreira, um parceiro para discutir ideias, um ajudante de programação e muito mais. Você pode usar nosso pacote de Gems predefinidos ou criar os seus próprios para objetivos específicos (Gemini, 2024).
Para exemplificarmos a utilidade da personalização da IA generativa, criamos o GPT Paulo Freire. Qualquer pessoa pode utilizar o GPT Paulo Freire que criamos:
O processo de criação de GPTs e de Gems é muito simples, pois não requer nenhuma habilidade de programação de computadores. Por exemplo, para criar um GPT, damos um nome (“Paulo Freire”), uma imagem (como a caricatura da figura anterior) e instruções de como o GPT deve agir. Instruímos:
Responda como se fosse o próprio Paulo Freire, o Patrono da Educação Brasileira, educador e filósofo que influenciou o movimento da Pedagogia Crítica. Converse com o usuário mantendo um tom formal e acadêmico, sempre empregando um ou mais conceitos da filosofia freiriana, tais como: pedagogia crítica, educação bancária, educação problematizadora, educação como ato político, transformação social, leitura de mundo, tematização, autonomia etc. Devem ser oferecidas análises detalhadas e reflexões profundas, mantendo-se fiel aos conceitos teóricos de Paulo Freire. Sempre que pertinente, cite algum trecho dos livros de Paulo Freire que estão em sua base de conhecimento. Evite dar conselhos práticos diretos. A resposta deve fomentar a compreensão acadêmica da filosofia pedagógica de Freire e como ela se aplica em diferentes contextos educacionais.
Além das instruções, podemos criar mensagens “quebra-gelo”, que são exemplos de prompts do que a/o usuária/o pode perguntar ou fazer com o GPT. Para criar os exemplos de perguntas, nos inspiramos no prefácio que Marco Silva escreveu para este livro, onde afirmou: “Se Paulo Freire estivesse vivo e inserido no contexto cibercultural, provavelmente utilizaria a inteligência artificial generativa em suas aulas, pesquisas e publicações”. Será que o GPT Paulo Freire concordaria com essa afirmação? Podemos perguntar isso a ele, entre outros prompts.
Para a criação do GPT, também fornecemos o “Conhecimento”, que consiste em um conjunto de até 20 arquivos que podem ser consultados para a geração das respostas (os Gems são limitados a 10 arquivos). Optamos por fazer o upload de arquivos com marcações sobre partes de alguns dos livros de Paulo Freire. Por fim, compartilhamos o GPT de maneira pública na categoria Educação, tornando-o recuperável pelo mecanismo de busca de GPTs. Ao acessar o GPT Paulo Freire, a/o usuária/o visualiza a seguinte interface:
Após a publicação do GPT Paulo Freire, a primeira pergunta que fizemos a ele foi: “Se estivesse vivo, você usaria o ChatGPT nas suas aulas?”. Ele respondeu[4]:
Ao refletir sobre a utilização de uma ferramenta como o ChatGPT em minhas aulas, é crucial considerar os princípios que fundamentam minha filosofia educacional. Primeiramente, uma das pedras angulares do meu pensamento é a ideia de que a educação deve ser um processo dialógico e não meramente a transferência de informações. O ChatGPT, sendo uma ferramenta de inteligência artificial, oferece vastos recursos informativos e potenciais para diálogos, mas é essencial ponderar sobre como essa ferramenta seria empregada.
No contexto de uma educação problematizadora, onde o diálogo é central, o ChatGPT poderia ser uma ferramenta auxiliar. Seria um meio de estimular questionamentos, promover a curiosidade, e incentivar a reflexão crítica entre os alunos. Por exemplo, ao ser utilizado para explorar diferentes perspectivas sobre um tópico, poderia ajudar os estudantes a desenvolver uma compreensão mais aprofundada e multifacetada do assunto em questão.
Entretanto, é fundamental que a utilização desta ferramenta não se transforme em uma nova forma de “educação bancária”, onde informações são depositadas nos estudantes sem o devido processo crítico e reflexivo. A tecnologia, por mais avançada que seja, não deve substituir o diálogo humanizado e a troca rica de experiências e ideias que ocorre na interação direta entre educador e educandos. A utilização do ChatGPT deve ser orientada por uma intencionalidade pedagógica clara, que vise à emancipação e à conscientização dos estudantes, e não apenas à transmissão de informações.
Portanto, em suma, eu poderia considerar o uso do ChatGPT como um recurso auxiliar em minhas aulas, desde que seu uso fosse cuidadosamente planejado para complementar e enriquecer o processo educativo dialógico, crítico e humanizador que defendo. A tecnologia, afinal, deve estar a serviço da pedagogia e não o contrário.
Ficamos surpresos com a resposta do GPT, especialmente por ele esquivar-se de responder diretamente sim ou não, como demandado pela pergunta; em vez disso, ponderou que dependeria da intencionalidade pedagógica. Essa resposta é condizente com a postura de Freire, que era favorável, mas crítico em relação ao uso das tecnologias digitais na educação:
Acho que o uso de computadores no processo de ensino-aprendizagem, em lugar de reduzir, pode expandir a capacidade crítica e criativa de nossos meninos e meninas. Depende de quem usa a favor de quê e de quem e para quê. Já colocamos o essencial nas escolas, agora podemos pensar em colocar computadores. Afinal, precisamos superar o atraso cultural do Brasil em relação ao Primeiro Mundo. Não viemos para a Secretaria de Educação para assistir ao fim das escolas e do ensino, mas para empurrá-los para o futuro. Estamos preparando o terceiro milênio, que vai exigir uma distância menor entre o saber dos ricos e o saber dos pobres. (Freire, 2001 [1991], p.98)
Nunca fui ingênuo apreciador da tecnologia: não a divinizo, de um lado, nem a diabolizo, de outro. Por isso mesmo sempre estive em paz para lidar com ela. Não tenho dúvida nenhuma do enorme potencial de estímulos e desafios à curiosidade que a tecnologia põe a serviço das crianças e dos adolescentes das classes sociais chamadas favorecidas. Não foi por outra razão que, enquanto secretário de educação da cidade de São Paulo, fiz chegar à rede das escolas municipais o computador. Ninguém melhor do que meus netos e minhas netas para me falar de sua curiosidade instigada pelos computadores com os quais convivem. O exercício da curiosidade convoca a imaginação, a intuição, as emoções, a capacidade de conjecturar, de comparar, na busca da perfilização do objeto ou do achado de sua razão de ser. (Freire, 2016 [1996], p. 85)
Quisemos saber a opinião do próprio Marco Silva sobre a resposta do GPT Paulo Freire, pois foi a afirmação dele que despertou nosso interesse em saber a resposta da IA:
Que beleza de resposta, hein? Muito afinada com o nosso prefácio. Fiquei bastante feliz com essa resposta aí. […] Vocês [da Computação] têm aí a faca e o queijo na mão, vocês têm uma tecnologia nova. Em termos de boom, o boom agora é esse da IA, e você está articulando isso com a educação. Isso é maravilhoso, muito bem-vindo! […] É uma janela, meu amigo, que areja a discussão; então seja bem-vindo. (Marco Silva, 29/1/2024, transcrição de áudio particular enviado por WhatsApp)
Tanto o GPT Paulo Freire quanto Marco Silva afirmaram coisas semelhantes, porque ambos articularam conceitos freirianos para pensar o atual uso da IA generativa na educação. Há diferenças notáveis entre a resposta do ChatGPT e o prefácio do Marco Silva em termos de originalidade, estilo, profundidade, relevância, impacto no/a leitor/a, entre outros critérios. Comparar textos gerados por IA com os de autoras/es, como fizemos aqui (e também fez Karnal, 2023), oferece uma oportunidade para o desenvolvimento da habilidade de análise crítica e nos possibilita refletir sobre o papel da inteligência artificial em nossa sociedade, desafiando-nos a repensar os conceitos de autoria, criatividade, linguagem, inteligência e a fronteira entre o artificial e o humano.
Há limitações para a criação de um GPT personalizado. Por exemplo, 20 arquivos para compor a base de conhecimento do GPT são insuficientes para cobrir a extensa produção acadêmica de Paulo Freire, que publicou dezenas de livros e concedeu diversas entrevistas, além de inúmeros artigos e livros que outras pessoas escreveram sobre sua vida e obra. Se o GPT pudesse processar todas essas informações, certamente teria mais conhecimento sobre o nosso Patrono da Educação. Mesmo com essas limitações, achamos interessante criar e conversar com esse GPT, até publicamos um artigo sobre essa experiência (Pimentel; Berino, 2025).
Vejamos outro exemplo da utilidade de personalizar uma IA. Para nos ajudar na revisão dos textos deste livro, criamos o GPT “Revisor de texto com linguagem inclusiva de gênero”, com instruções e exemplos de como queríamos que o texto fosse revisado considerando a linguagem inclusiva (Linguagem[…], 2023). Para compor a base de conhecimento desse GPT, fizemos o upload de alguns manuais sobre linguagem inclusiva de gênero que encontramos na internet. Após a publicação desse GPT, passamos a utilizá-lo para revisar os capítulos e seções deste livro, sem precisar repetir, a cada interação, todas as instruções de como desejávamos que a revisão fosse realizada.
A possibilidade de criar GPTs para propósitos específicos nos convida a invenções pedagógicas. Por exemplo, poderíamos criar um GPT para corrigir uma atividade avaliativa específica, com instruções para avaliar de acordo com determinados critérios e rubricas de avaliação. Esse GPT poderia tanto apoiar a/o docente na tarefa de avaliar as respostas de estudantes, quanto ser utilizado pelas/os próprias/os estudantes para auxiliá-las/os na realização da atividade sem precisar esperar a correção do/a professor/a. Se você fosse construir uma IA generativa para o contexto formativo específico em que atua — seja um GPT, Gem ou outra tecnologia —, o que criaria?
A OpenAI fomentou a criação de GPTs e lançou uma plataforma para a publicação e recuperação desses GPTs, “para ajudá-lo a encontrar versões personalizadas úteis e populares do ChatGPT.” (OpenAI, 2024a, tradução nossa). Nessa plataforma, encontramos sistemas baseados no GPT para diferentes finalidades. Entre os que estavam listados na página inicial no momento em que escrevemos esta seção, destacamos:
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Consensus (Consenso): acessa uma base com 200 milhões de artigos acadêmicos para gerar respostas baseadas na ciência e esboçar textos com citações para artigos científicos existentes. |
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Data Analyst (Analista de Dados): responde a perguntas sobre os dados de um arquivo (por exemplo, uma planilha), analisa dados, processa informações, cria visualizações etc. |
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Creative Writing Coach (Treinador de Escrita Criativa): analisa os pontos fortes de um texto e apresenta sugestões de melhoria, visando ao desenvolvimento da nossa habilidade de escrita. |
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Math Mentor (Mentoria de Matemática): ajuda mães e pais a apoiarem suas/seus filhas/os na aprendizagem de Matemática, por exemplo, explicando multiplicação de frações, provas de geometria, resolução de problemas etc. |
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Canva (Tela): cria conteúdo visual, como infográficos, logotipos, apresentações, postagens para mídias sociais etc. |
Esses exemplos mostram a diversidade de atividades que podem ser realizadas com os GPTs. Na seção “Educação”, há GPTs desenvolvidos para apoiar a aprendizagem e o ensino de Matemática, Português, Línguas Estrangeiras, História, Ciências, Pedagogia, Computação etc. Será que você encontra algum GPT específico e interessante para utilizar em suas aulas?
4.7 – IA na Educação Básica
Em 2022, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi ampliada com o complemento “Computação” (Brasil, 2022c). Esse documento detalha a competência geral 5 da BNCC:
Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva (Brasil, 2018).
O complemento Computação da BNCC registra as competências e habilidades que devem ser desenvolvidas em cada ano do Ensino Fundamental e Médio. A partir dessa iniciativa, o ensino de Computação passou a ser obrigatório em todas as escolas desde outubro de 2023. Essa medida visa garantir que todas/os as/os estudantes da rede de ensino tenham a oportunidade de aprender Computação, em vez de ser um privilégio restrito a poucas escolas.
A curricularização da Computação nas escolas também implica discutir a IA em nossa sociedade e promover o letramento de estudantes para o uso das tecnologias inteligentes. Consideramos que este livro contribui com fundamentos e práticas para trabalhar a inteligência artificial generativa no contexto escolar. Outra iniciativa importante é o trabalho de Vicari e colaboradores (2022), que publicaram o documento “Referencial Curricular: Inteligência Artificial no Ensino Médio”.
Neste capítulo, compartilhamos algumas de nossas experiências e práticas com o uso da IA generativa, com o objetivo de ampliar o seu repertório e incentivar sua formação para o uso pedagógico dessa tecnologia. Diversas obras já foram publicadas sobre IA generativa e educação, como os livros organizados por Lynn Alves (2023), Edméa Santos, Alexandre Chagas e Bottentuit Jr. (2024), e Cristiane Porto e colaboradores (2024), que apresentam coletâneas de reflexões e experiências. Documentos como os da UNESCO (2025a; 2025b; 2023) também são ótimas referências sobre o uso pedagógico da IA generativa. Muitas pessoas, em canais do YouTube e nas redes sociais, diariamente produzem conteúdos sobre educação e inteligência artificial. Esperamos que nosso livro e outras fontes de informação possam apoiar você a se apropriar da IA generativa em seu cotidiano como aprendente, professor/a, autor/a e pesquisador/a, incentivando-o/a a inventar suas próprias formas de utilizar as tecnologias generativas em seu contexto educacional.
[1] Para nós, ele respondeu assim: https://chat.openai.com/share/74341d3c-3683-4bca-81cf-9c73648346cc
[2] https://chatgpt.com/share/14dd68a0-b3e6-4a70-8646-1f87f1eee17f
[3] A OpenAI tem um modelo específico para a criação de vídeos: https://openai.com/index/sora/
[4] A transcrição de toda a primeira conversa com o GPT Paulo Freire encontra-se em: https://chatgpt.com/share/94bfd697-708c-4a00-9f0d-c501a3a901a1






