19. IA generativa como coautora: por uma educação que valorize a autoria

Em tempos de cibercultura, com a liberação do polo de emissão (Lemos, 2007), todas as pessoas se tornaram autoras/es em potencial. Criamos textos, sons, imagens e vídeos que podem ser compartilhados nas timelines de nossas redes sociais e em outros espaços digitais. A IA generativa amplia as possibilidades de produção e expressão, mas também impõe novos desafios, como a facilidade de plágio e a geração de informações inadequadas. Diante disso, é urgente (re)pensar a noção de autoralidade das/os estudantes e inventar atividades didáticas que assegurem a centralidade da criatividade humana e do pensamento crítico nos processos de aprendizagem.

Autoria é uma noção plural, aberta a múltiplas significações. Para conceber uma autoria alinhada às práticas (ciber)culturais, partimos das intersecções entre processos formativos, currículo, cultura e diferença, entre outros aspectos (Silva, T., 2000; 2019; Alves, 2003; Macedo, 2007; 2010; 2013; Gallo, 2008). Compreendemos a autoria como um processo de investigação e descoberta de nós mesmas/os, de quem somos e de como desejamos nos posicionar no mundo. Trata-se da expressão, por meio de múltiplas linguagens, de nossa subjetividade, de nossos pensamentos, sentimentos e experiências pessoais. É, também, um processo de autorização e afirmação de si. Quando compreendemos a profundidade da autoria, torna-se inconcebível delegar integralmente a uma máquina o ato de pensar e se expressar em nosso lugar. Ainda assim, a parceria com a IA generativa pode ser bem-vinda como apoio no esforço de comunicar com clareza aquilo que desejamos expressar, desde que o processo preserve também a autoria humana, sem substituí-la pelos conteúdos gerados por máquinas.

No inglês, o verbo to author existe, mas, em português, “autorar” ainda não é oficialmente reconhecido[1]. Pensar em autorar é refletir sobre verbos como criar, intervir, colaborar, interagir, mediar, divulgar, compartilhar e viralizar, que caracterizam a cibercultura, também marcada por verbos como plagiar, mentir, vigiar e controlar. Esses verbos revelam fragmentos de nós mesmas/os, de nossas práticas em rede, de nossos processos formativos, de quem somos, no que nos tornamos e como somos governadas/os.

Manipulamos a palavra autoria não por desrespeito à língua portuguesa, mas pela necessidade de nomear conceitos para os quais ainda não dispomos de vocabulário preciso, ou cujos termos existentes não expressam adequadamente o que desejamos comunicar. Por isso, propomos o neologismo autoragem — uma fusão entre autoria e aprendizagem — para designar o processo de autoria voltado à promoção da aprendizagem. Cunhamos esse termo inspiradas/os no conceito de produsagem:

“Produsagem” é um neologismo baseado no termo em inglês produsage (Bruns, 2008) que, por sua vez, é uma composição de production (produção) e usage (uso). A produsagem é uma faceta da convergência, aquela pela qual os papéis de autor e audiência, construtor e usuário, produtor e consumidor passam a se confundir e a se misturar, não necessariamente de forma pacífica. (Buzato, 2021, n.p.)

A autoria promove a aprendizagem quando exige do/a autor/a a realização de pesquisas, descobertas, apropriações, ressignificações, reflexões, teorizações e conexões, tecendo saberes com base em suas próprias experiências para produzir e negociar sentidos. Pensar a autoria como um processo formativo é refletir sobre a educação contemporânea e criar oportunidades para que estudantes aprendam a conhecer, a fazer, a conviver e a ser. Entre esses pilares da educação do século XXI, escolas e universidades tendem a enfatizar o aprender a conhecer e, às vezes, o aprender a fazer (Delors et al., 1998). No entanto, enquanto docentes, nosso papel não pode se restringir ao ensino de conhecimentos científicos e sua aplicação prática; precisamos também criar condições para que estudantes aprendam a ser e a conviver, aprendizagens necessárias para a vida em sociedade.

A autoria proporciona a aprendizagem de novas informações e sua aplicação na criação de uma obra. Por meio de suas produções, a/o estudante expressa desejos, experiências, medos, sonhos e posicionamentos. Nesse movimento, reflete sobre si mesma/o, compreende melhor suas diferenças, identificações, culturas, crenças, relações, desejos e valores éticos — o que se desdobra no aprender a ser. Ao compartilhar suas expressões com outras pessoas ou ao realizar produções em coautoria, a/o estudante negocia sentidos, assume corresponsabilidades, compromete-se com o coletivo e com objetivos comuns, aprende a mediar conflitos e a lidar com intersubjetividades — experiências que contribuem para o aprender a conviver.

É útil diferenciar autoria de pré-autoria. A pré-autoria ocorre quando há concordância ou reprodução de ideias já existentes: “não é uma cópia, mas uma espécie de releitura de uma obra” (Backes, 2012, p. 80). Em contrapartida, a autoria pode ser transformadora-crítica ou criadora. A autoria transformadora-crítica implica o exame reflexivo e questionador dos conhecimentos construídos; já a autoria criadora envolve a ressignificação do saber aprendido, mobilizando a criatividade para fazer emergir novos conhecimentos. Essas categorias nos ajudam a compreender que, se a/o estudante realiza uma atividade apenas reinterpretando ideias presentes em livros, videoaulas, conteúdos da internet ou textos gerados por IA generativa, ainda que utilize suas próprias palavras, essa produção não se configura como autoria, mas como pré-autoria, pois reproduz conhecimento preexistente sem criticá-lo, transformá-lo ou gerar algo novo.

Com a chegada da IA generativa, tornou-se ainda mais problemático propor atividades que exijam apenas pré-autoria. Quando uma pessoa delega inteiramente a criação a uma tecnologia generativa, sem atuar como (co)autora da obra, está abrindo mão do processo formativo que a autoria pode envolver. Com nossas/os estudantes, preferimos trabalhar a autoria como um processo de autorização, no qual elas/es se autorizam a se posicionar criticamente, a expressar seus conhecimentos e subjetividades, e a se responsabilizar pelo que produzem. Trabalhamos com a ideia de criação assistida por IA e autoria híbrida, que podem desencadear processos formativos intensos. Não há autoria quando uma atividade exige apenas uma resposta única, previamente determinada pela/o docente, e a/o estudante precisa apenas reproduzir o que já existe. Quando uma atividade não promove autoria, ela tende a facilitar e até incentivar o plágio.

Elaborar situações de aprendizagem que possibilitem a autoria por parte da/o estudante não é uma tarefa simples, especialmente porque estamos habituadas/os a propor atividades baseadas na repetição de conteúdos do livro didático ou na resolução de problemas seguindo um conjunto pré-determinado de etapas. Esse tipo de atividade, por sua estrutura padronizada, pode ser facilmente realizado por uma IA generativa.

Para propor situações que promovam a formulação de novos saberes, devemos elaborar atividades em que a/o estudante se sinta autorizada/o a “narrar a vida”, inserindo sempre o fio do seu próprio modo de significar e contar (Alves, 2001). Nós, docentes, podemos mobilizar nossa autoria pedagógica para arquitetar, de forma criativa, situações de aprendizagem que incentivem estudantes a refletir, posicionar-se, criar, realizar uma autoria de si (Maddalena, 2020), narrar o próprio cotidiano, explicitar sua compreensão do novo a partir da relação com conhecimentos prévios e experiências pessoais, (re)significar à sua maneira, de seu modo singular. Nenhuma dessas ações pode ser realizada pela IA em lugar da pessoa aprendente.

Defendemos a necessidade de superar a concepção de estudante-espectador/a de aulas expositivas, substituindo-a pela concepção de estudante-autor/a. Quando falamos em autoria estudantil, estamos nos referindo à formação voltada para o pensamento crítico, a criatividade e a construção de valores éticos. Acreditamos que esse seja um dos grandes desafios da contemporaneidade, pois exige transformações nas concepções pedagógicas e nas práticas docentes. Trata-se de reconfigurar as relações de poder-saber no interior das aulas, de repensar o significado de educar e de rever nosso papel como formadoras/es em tempos de inteligência artificial generativa.

Para alcançar esse objetivo, devemos criar oportunidades de expressão, promover a publicação das autorias e sua apresentação para a turma; se a turma desejar, podemos organizar um acervo para publicação na internet. Nesse contexto, nosso papel inclui a concepção das situações de autoragem e ações de mediação, entre elas, destacamos:

  • praticar uma escuta atenta e sensível, buscando compreender o que as/os estudantes têm a dizer, como estão significando, negociando, refutando e tecendo conhecimentos;
  • analisar os conteúdos elaborados pelas/os estudantes e o que expressam, verificando se estão alinhados à proposta, se apresentam problemas conceituais ou práticos, se há indícios de plágio ou se contêm violações a princípios éticos, como discursos machistas, racistas ou LGBT+fóbicos;
  • comentar cada autoria, contrapondo ideias, trazendo diferentes perspectivas e promovendo tanto a valorização quanto o tensionamento crítico das posições assumidas pelas/os estudantes;
  • incentivar a participação das/os colegas, convidando-as/os a comentar e compartilhar outros pontos de vista, promovendo a aprendizagem colaborativa e a escuta sensível;
  • fortalecer os laços sociais e mediar eventuais conflitos interpessoais que possam emergir nos processos coletivos de criação;
  • evitar avaliar a autoria como certa ou errada, uma vez que se trata de uma expressão singular, e não da reprodução de conhecimentos estabelecidos que sirvam de parâmetros para uma correção. Caso a avaliação seja necessária, é possível construir, em diálogo com a turma, rubricas avaliativas com critérios de qualidade e níveis de realização. Isso facilita a compreensão das notas, amplia a prática da autoavaliação e possibilita a avaliação colaborativa. Pode ser interessante permitir que o/a autor/a revise a obra após o feedback;
  • problematizar o uso das tecnologias digitais em rede, especialmente das tecnologias generativas, analisando se estão sendo utilizadas para fins de plágio ou para processos potentes de autoria híbrida entre humano-IA.

Compreender a IA generativa como uma coautora em potencial não significa abrir mão da autoria humana. Significa, acima de tudo, reconhecer que o conceito de autoria tornou-se mais complexo, abrindo espaço para a colaboração com a IA sem renunciar à criatividade, à criticidade e à ética. Ao desenharmos situações de aprendizagem que incentivem as/os estudantes a se autorizarem a refletir, criar e atribuir sentidos, devemos considerar a IA como uma parceira no processo, e não como substituta da autoria humana.

Nos cursos de formação continuada, ao incentivarmos docentes a projetar atividades que envolvam a criação com apoio da IA, frequentemente nos deparamos com propostas surpreendentes e inovadoras. Novas práticas de autoragem híbrida estudante-IA estão sendo forjadas, apontando caminhos promissores para a educação contemporânea.

Que possamos aprender, com a prática de coautoria com a IA generativa, que formação é um processo de autorização; ou não é, verdadeiramente, formação. Que a autoria, enquanto exercício de expressão singular e situada, seja cada vez mais valorizada em nossas aulas, em todas as modalidades de ensino.

No entanto, há um risco que não pode ser ignorado: os conteúdos gerados pela IA podem se tornar tão sofisticados e sedutores que algumas pessoas passem a se sentir diminuídas diante da capacidade da máquina. Em vez de se reconhecerem como cocriadoras/es, podem ceder à tentação de delegar integralmente a criação à tecnologia, desvalorizando sua própria potência expressiva e intelectual. Mais do que nunca, é necessário reafirmar: a IA não pode substituir a autoria estudantil. Ela pode, sim, ser uma aliada na ampliação da criatividade e no enriquecimento das expressões, desde que o processo formativo reafirme, de forma contínua, o lugar das/os estudantes como autoras/es de seu próprio pensamento, de sua expressão e de sua existência.

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[1] Não consta no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP): https://www.academia.org.br/nossa-lingua/busca-no-vocabulario

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