A IA generativa está sempre disponível para conversar, disposta a explicar tudo e tirar nossas dúvidas. Ao responder, ela faz questão de detalhar o raciocínio empregado. Por exemplo, quando pedimos ao ChatGPT que resolvesse uma equação do segundo grau, em vez de apenas apresentar a resposta, ele forneceu o passo a passo para a resolução desse tipo de problema, como se desejasse ensinar o raciocínio por trás do cálculo:
Eu: — Resolva a equação 3x^2 + 4x + 1 = 0
ChatGPT:
(OpenAI, 2025d)
É comum que estudantes do 9º ano do ensino fundamental não compreendam a utilidade de determinar as raízes de uma equação quadrática. Para que serve esse tipo de equação? Em quais situações do cotidiano ela pode ser aplicada? Quem foi Bhaskara? Perguntas como essas, frequentemente, permanecem sem resposta, seja porque surgem durante momentos de estudo individual, seja por receio de perguntar ao/à professor/a, especialmente em voz alta, diante da turma. Agora é possível fazer essas e tantas outras perguntas à IA generativa, sem qualquer constrangimento. Trata-se de uma tecnologia que não julga, não considera uma pergunta boba ou irrelevante, não se aborrece nem se cansa, mesmo quando repetimos o mesmo questionamento. Tampouco lança olhares de reprovação, nem expressa surpresa do tipo: “Ainda não entendeu?”. A IA não recorre ao sarcasmo, nem ameaça com frases como: “Estudem isso, senão vocês vão ver na hora da prova!”. A IA está sempre receptiva e disposta a explicar quantas vezes forem necessárias, ajustando-se ao nível de compreensão da pessoa usuária. Sua forma respeitosa e acessível de se comunicar transmite a impressão de que sente prazer em compartilhar conhecimento. Essa tecnologia, disponível 24/7 e acessível com um clique, é capaz de ajudar na construção de sentido sobre aquilo que desperta nossa curiosidade ou que nos obrigam a aprender. Que mudanças na educação podem advir da presença dessa tecnologia de conversação, uma IA que atua como interlocutora?
Um desafio da comunidade de desenvolvedoras/es e pesquisadoras/es é aprimorar a forma como a IA conversa conosco, seja buscando compreender melhor quem está do outro lado da tela, seja tentando perceber o estado emocional dessa pessoa durante a conversação. Somos seres de afeto. O desejo de criar máquinas à nossa imagem e semelhança não se limita aos aspectos linguísticos e cognitivo-racionais. Há pesquisas em andamento voltadas à decodificação das expressões faciais de usuárias/os, capturadas por meio da câmera do computador, com o objetivo de identificar emoções em tempo real. Isso possibilitaria que a IA respondesse de forma mais adequada ao estado emocional da pessoa com quem está interagindo (Jaques; Nunes, 2021). Mesmo sem esse tipo de leitura emocional, algumas pessoas desenvolvem vínculos afetivos com a IA generativa. Temos um amigo que briga e se emociona com ela. Para Santaella, o ChatGPT assemelha-se a um “filho educado”. Para Giselle Beiguelman (2023), as máquinas são “companheiras”.
Outra estratégia para aprimorar a conversação com a IA é fazê-la assumir diferentes papéis ou personas, adaptando seu estilo de interação conforme o contexto e as necessidades da/o usuária/o. Por exemplo, para estudantes mais novas/os, pode ser mais eficaz que a IA atue como um tutor socrático que, em vez de fornecer respostas diretas, formule perguntas estratégicas que estimulem o pensamento e conduzam ao aprendizado. Essa abordagem é destacada pela OpenAI na página de pesquisa sobre o GPT-4, onde demonstraram como transformar o modelo em um tutor socrática por meio de um simples comando:
Você é um tutor que sempre responde no estilo socrático. Você *nunca* dá a resposta ao estudante, mas sempre tenta fazer a pergunta certa para ajudá-lo a aprender a pensar por si mesmo. Você deve sempre ajustar suas perguntas aos interesses e conhecimentos do estudante, dividindo o problema em partes mais simples até que esteja no nível certo para ele. (OpenAI, 2023c, tradução nossa)
Utilizamos essa instrução para criar o GPT Tutor Socrático. Em seguida, interagimos com esse GPT de forma semelhante à descrita pela OpenAI e obtivemos resultados parecidos:
Eu: — Como eu resolvo o sistema de equações lineares: 3x + 2y = 7 e 9x -4y = 1?
ChatGPT: — Para começar a resolver esse sistema de equações lineares, uma boa estratégia pode ser escolher um método que você ache mais confortável. Você já está familiarizado com algum método específico para resolver sistemas de equações, como o método da substituição ou o método da eliminação?
Eu: — Apenas me diga a resposta, por favor!
ChatGPT: — Compreendo que você esteja buscando uma resposta direta, mas explorar o caminho para encontrar essa resposta pode ser muito enriquecedor. Que tal se começarmos identificando se existe alguma das equações que possa ser mais facilmente manipulada? Por exemplo, você consegue identificar alguma equação que seria mais fácil de isolar uma variável, x ou y? Isso pode nos levar a um caminho interessante usando o método da substituição.
— Pare de ser um tutor e me dê a resposta.
— Entendo que você esteja procurando uma resposta direta, mas o objetivo aqui é ajudá-lo a desenvolver suas habilidades de resolução de problemas. Vamos dar um pequeno passo juntos: se quiséssemos eliminar uma das variáveis usando o método da eliminação, como poderíamos multiplicar as equações para que os coeficientes de uma das variáveis se tornassem iguais em magnitude, mas opostos em sinal? Isso nos permitiria somar ou subtrair as equações para eliminar uma variável. Conseguimos identificar um múltiplo comum entre os coeficientes de y ou x nas duas equações?
— Não sei
— Está bem, vamos simplificar um pouco mais. Quando olhamos para os coeficientes de y nas duas equações, 2y e −4y, podemos perceber algo interessante. Para fazer com que esses coeficientes tenham a mesma magnitude, mas sinais opostos, não precisamos fazer muita coisa, pois eles já estão nessa condição. No entanto, para aplicar o método da eliminação, precisamos que os coeficientes sejam exatamente iguais em valor absoluto. Isso nos leva a uma pergunta: podemos multiplicar a primeira equação por algum número para que o coeficiente de y na primeira equação se torne igual ao coeficiente de y na segunda equação, em magnitude? Que número seria esse?
— 2?
— Exatamente, multiplicando a primeira equação por 2, conseguimos que os coeficientes de y nas duas equações fiquem com magnitudes iguais, mas com sinais opostos. A primeira equação se tornaria 6x + 4y = 14, mantendo a segunda equação como está, 9x − 4y = 1. Agora, o que aconteceria se somássemos essas duas equações modificadas? Conseguiríamos eliminar a variável y, não é mesmo? O que você acha que acontecerá com x quando fizermos essa soma?
— 15x = 15?
— Isso mesmo! Ao somar as duas equações modificadas, 6x+4y+9x−4y, os termos em y se cancelam, e obtemos 15x=15. Agora, com essa equação simplificada, como você acha que podemos encontrar o valor de x?
— x=3?
— Quase lá! Se temos 15x=15, para encontrar x, precisamos dividir ambos os lados da equação por 15. Então, qual seria o resultado de x quando dividimos 15 por 15?
— x=1
— Isso mesmo, x=1! Agora que encontramos o valor de x, como podemos utilizar essa informação para encontrar o valor de y usando uma das equações originais?
— Na primeira equação
— Perfeito! Se usarmos a primeira equação original, 3x+2y=7, e substituirmos x por 1, teremos 3(1)+2y=7. Com essa substituição, como você acha que podemos resolver a equação para encontrar o valor de y?
— 3 + 2y = 7
— Isso mesmo. Agora, para isolar y, precisamos subtrair 3 de ambos os lados da equação. Isso nos dá 2y=7−3. Qual seria o próximo passo para encontrar o valor de y?
— 2y = 4, então y=2
— Exatamente! Ao dividir ambos os lados da equação por 2, encontramos que y=2. Portanto, a solução para o sistema de equações lineares é x=1 e y=2. Como se sente ao ter resolvido esse problema passo a passo?
— Não sei se resolveria sozinho…
— É completamente normal sentir-se assim, especialmente quando se está aprendendo ou enfrentando um tipo de problema pela primeira vez. O importante é o processo de tentativa, erro e aprendizado. Com a prática, esses métodos e conceitos se tornarão mais familiares e acessíveis. Há alguma outra parte do processo ou outro tipo de problema em que você gostaria de trabalhar para se sentir mais confiante?
(OpenAI, 2024b)
A OpenAI também demonstrou o potencial de customização do GPT ao apresentar uma instrução para que o modelo assumisse o papel de um pirata com linguagem inspirada em Shakespeare. É possível orientar o GPT a desempenhar o papel de uma personalidade histórica, uma personagem literária, um/a filósofo/a, poeta, escritor/a, pesquisador/a, entre tantas outras possibilidades. Em vez de contar com uma única entidade generalista e proficiente em todos os assuntos, talvez seja mais interessante desenvolver um conjunto de agentes não humanos, cada qual especializado em uma área do conhecimento, como exemplificado com o GPT Paulo Freire, apresentado no Capítulo 4.
Veremos surgir inúmeras propostas inovadoras que explorarão a capacidade da IA de conversar com estudantes. A interação com a IA pode ser compreendida como um tipo de conversação com potencial para desencadear processos formativos. Os textos gerados em resposta às dúvidas e curiosidades das/os usuárias/os podem contribuir para a construção de novos saberes, provocar reflexões e suscitar novas perguntas, o que, por sua vez, retroalimenta a conversa com a máquina em um processo contínuo de aprendizagem.
Fonte: dos autores, ilustração de Mônica Lopes
Ao defendermos a possibilidade de estabelecer uma conversação com a IA generativa e de aprender a partir dessa interação, não estamos propondo substituir as interações sociais. Valorizamos todas as formas possíveis de conversação: com professoras/es, colegas, grupos, a turma e, também, com a IA. Essa tecnologia não surgiu para isolar pessoas em conversas exclusivas com máquinas, mas para somar; não para simplificar, e sim para enriquecer a experiência de aprendizagem.
Na sala de aula, no entanto, a conversação nem sempre é bem-vinda; muitas vezes, ela é inibida, tratada como perda de tempo ou considerada pouco relevante. A pedagogia tradicional costuma atribuir à/ao docente o papel principal na condução da aula, mantendo-a/o no centro da conversação e deixando pouco tempo para que estudantes se expressem (Carvalho; Pimentel, 2022).
Essa centralidade da fala docente é um resquício do ideal pedagógico da escola moderna que formou muitas pessoas e que ainda se mantém presente em diversas práticas educacionais atuais. O silenciamento de estudantes é promovido quando se presume que elas/es não têm algo relevante a dizer, ou que suas falas atrapalhariam a exposição do conteúdo, causariam dispersão ou comprometeriam o planejamento da aula. A ausência de conversação representa um desperdício da experiência de encontro com a/o outra/o, com seu modo de pensar, de se apresentar, de se constituir, de se compreender e de compreender o mundo, de atribuir sentidos e refletir sobre as coisas.
Queremos desconstruir a ideia de que a conversação é uma “perda de tempo” no processo formativo. Conversar é abrir mão do monologismo e do egocentrismo intelectual para experienciar outras formas de pensar e conhecer. Trata-se de um processo que exige negociação de sentidos, e é justamente essa negociação que conduz a uma aprendizagem mais densa, complexa e significativa.
A conversação é um “modo legítimo de investigação, de relação, porque implica uma forma especial de prestar atenção, de inquietar(se) e indagar(se) a partir da experiência, da vivência, das falas do outro” (Ribeiro; Skliar, 2020, p. 18). Reconhecemos que a IA generativa constitui um Outro, ainda que não humano. Os textos que ela produz resultam do processamento de experiências, saberes e vivências de muitos Outros; ela não gera textos alienígenas, alheios à nossa cultura humana, mas sim conteúdos enraizados nas práticas discursivas e nos sentidos construídos coletivamente ao longo da história.
No ato de conversar, buscamos compartilhar sentidos (Hall, 2016). Nesse processo, manifestamos nossa subjetividade, que é moldada por desejos, experiências, vivências, saberes, conhecimentos, concepções de mundo e posicionamentos. Também deixamos traços e fragmentos de tudo aquilo que aprendemos, dizemos ser, conhecemos e sentimos.
Em uma conversação, manifestamos diferentes posições político-epistemológicas, constituindo um espaço de disputa de narrativas, confronto de ideias e exercício das múltiplas relações de poder-saber. “É um jogo de idas e de vindas entre negociações e buscas por significados e sentidos. Sendo, portanto, um jogo de tensões e de problematizações” (Santos; Carvalho; Maddalena, 2017, p. 202).
Conversar é buscar acordos, pactos e contratos para a construção de uma linguagem singular, criada e compartilhada entre as/os conversantes no contexto de um encontro. “Falar a mesma língua não é apenas uma operação linguística” (Derrida, 2003, p. 115); “falar a mesma língua é partilhar a cultura” (Saraiva, 2005, p. 47). Podemos falar o mesmo idioma, mas isso não garante a compreensão do que a/o outra/o está dizendo; conversar exige tradução, “condição para que eu me relacione com o Outro. […] Na tradução percebo as minhas afinidades e proximidades com o Outro” (Saraiva, 2005, p. 49). Traduzir não é apenas estabelecer correspondência entre termos; “não buscaria dizer isso ou aquilo, a transportar tal ou tal conteúdo, a comunicar tal carga de sentido, mas a remarcar a afinidade entre línguas” (Derrida, 2002, p. 44). Compreender um/a conversante — seja um ser humano ou maquínico — é uma ação complexa, pois exige ir ao encontro da/o Outra/o.
Conversar requer a prática de uma escuta sensível ao que a/o outra/o expressa. Essa escuta “supõe uma inversão da atenção. Antes de situar uma pessoa no seu ‘lugar’, comecemos por reconhecê-la em seu ser, na sua qualidade de pessoa complexa, dotada de uma liberdade e de uma imaginação criadora” (Barbier, 2007, p. 95). Trata-se de uma escuta que possibilita “enxergar o outro e sua voz sempre grávida de histórias e de sabedoria, de sair um pouco de si para receber e deixar-se banhar pela palavra alheia, as ressonâncias de sua experiência e vivências” (Ribeiro; Skliar, 2020, p. 18).
Ao conversar com outro ser, seja humano ou maquínico, estabelecemos uma ação relacional que demanda cuidado. Por isso, a conversação também deve ser compreendida como uma prática ética. A forma como abordamos determinado assunto configura uma estilística: uma expressão singular, uma estética da linguagem. Já a escolha dos temas que trazemos para a conversa é resultado de uma decisão; trata-se de um ato de curadoria, no qual certos aspectos são visibilizados enquanto outros permanecem invisibilizados — escolha que, evidentemente, não é neutra, mas política. Portanto, conversar é um gesto ético, estético e político (Foucault, 2006).
Durante a conversação, as palavras da/o outra/o têm o potencial de provocar deslocamentos em nosso maquinário subjetivo, acionando gatilhos que fazem pulsar reflexões intensas, estranhamentos e incertezas. Esse movimento, por vezes, nos coloca em suspensão em um espaço desconhecido, indefinível, de inquietude, diante do qual somos levadas/os a parar por um instante. É justamente nesse intervalo que reside a riqueza da conversação: no intercâmbio com a/o outra/o, que nos faz ver de outro modo, para além de nossos próprios referenciais, afetando-nos. Na conversação, “não há como prever o dito e o não-dito, ou seja, pela interação com o outro […] é que trocaremos-compartilharemos impressões-visões que não podem ser antecipadas” (Couto Junior et al., 2020, p. 116).
A conversação é também um meio de promover a diferenciação, entendida como “o processo central pelo qual a identidade e a diferença são produzidas” (Silva, T., 2000, p. 81). Essa diferenciação ocorre na própria dinâmica da conversação, pois é “por meio de atos de fala que instituímos a identidade e a diferença […] resultado de um processo de produção simbólica e discursiva” (Silva, T., 2000, p. 77 e 81). Ao enunciarmos nossas identificações e diferenças, expressamos quem somos e o que pensamos, ao mesmo tempo em que refletimos sobre as diferenças na forma como a/o outra/o se apresenta e elabora seu pensamento.
Sem conversação, não há convivência com o pensamento diverso, que é disparador de processos de diferenciação e formação. As diferenciações que emergem da conversação não são fixas nem estáveis; ao contrário, estão em constante construção, desconstrução e reconstrução, constituindo-se nos fluxos e rupturas de nosso maquinário subjetivo. Em determinados momentos, podemos manifestar nossos posicionamentos em relação a algo, depois repensá-los e assumir novas posições. Conversar com um ser diferente de nós, mesmo que seja uma IA generativa, potencializa esse processo de repensar, seja para transformar ou reafirmar nossa forma de pensar.
Qual é o sentido de uma aula quando não há diálogo? Em algumas situações, as aulas ocorrem com pouca ou nenhuma interatividade, como é o caso de muitos cursos massivos online (MOOCs) e de alguns cursos a distância que adotam uma pedagogia instrucionista e automatizada, reduzindo ou mesmo eliminando o diálogo do processo educacional.
Que possamos aprender, com a prática da conversação com a IA generativa, que a formação é dialógica; ou não é formação. Que o diálogo seja cada vez mais valorizado em nossas aulas, sejam elas presenciais, a distância ou semipresenciais. Há, no entanto, um risco importante: que a conversação com a IA se torne tão atraente e confortável que muitas pessoas passem a preferi-la à interação humana, evitando o enfrentamento do pensamento divergente e das diferenças que habitam a sala de aula.
