21. Que educação desejamos?

Queremos encerrar este livro discutindo três diferentes configurações educacionais em relação ao uso das tecnologias digitais: (1) a educação presencial sem acesso a tecnologias digitais disponíveis para docentes e estudantes; (2) a educação totalmente digital, sem que estudantes tenham acesso a qualquer professor/a humano/a; e (3) a educação híbrida, que combina momentos presenciais e online, integrando a mediação de professoras/es e de IA generativa. Alguns questionamentos precisam ser feitos: A quem interessa cada uma dessas configurações educacionais? Que ideal de estudante se pretende formar e que processos subjetivos são produzidos? Quais abordagens didático-pedagógico-curriculares estão sendo adotadas? Quais intencionalidades econômicas as orientam? Quais as potencialidades e desafios de cada configuração?

Educação sem tecnologias digitais

Fonte: dos autores, ilustração de Mônica Lopes

Vivemos na era da IA generativa, que tem transformado diversos aspectos da sociedade e, na educação, tem alavancado novas práticas de aprendizagem e ensino. No entanto, não podemos perder de vista que ainda há escolas e universidades sem amplo acesso a tecnologias digitais em rede de boa qualidade para docentes e estudantes.

Essa configuração educacional acarreta implicações para as práticas pedagógicas e os processos formativos. A ausência de acesso à internet, a conteúdos online e a tecnologias generativas restringe a exploração das múltiplas fontes de informação e das possibilidades do digital em rede para aprender e cocriar durante as aulas. Uma educação sem tecnologias digitais compromete a vivência de fenômenos ciberculturais na formação, dificultando o desenvolvimento do letramento digital necessário para o uso de IA generativa e outras tecnologias do nosso tempo.

Nesse contexto, as políticas de inclusão digital induzida pelo Estado tornam-se fundamentais. Diferentemente da “inclusão espontânea”, que ocorre gradualmente e de forma voluntária, a inclusão induzida é um processo orientado e, muitas vezes, compulsório de inserção das pessoas na sociedade em rede. Esse processo exige um trabalho educativo planejado e a implementação de políticas públicas que “visam dar oportunidades a uma grande parcela da população excluída do uso e dos benefícios da sociedade da informação. É o que conhecemos por projetos de inclusão digital” (Lemos, 2011, p. 19).

É evidente que o uso de tecnologias digitais na educação, por si só, não garante uma sociedade mais justa e menos desigual. No entanto, a exclusão cibercultural perpetua o abismo das desigualdades no acesso aos melhores recursos de aprendizagem-ensino de nosso tempo. A quem interessa uma educação desplugada, infopobre e alheia aos fenômenos da cultura digital?

Enquanto o filho do rico acessa todos os recursos disponíveis em rede, a partir de casa, com equipamentos de áudio e vídeo de última geração, os filhos dos pobres acessam a partir da escola ou dos centros públicos, onde as proibições são muito mais destacadas que as possibilidades de comunicação, acesso às informações e produção oferecidas pelas redes (Bonilla; Pretto, 2011, p.41).

Desde 2011, a ONU reconhece o acesso à internet como um direito humano. Contudo, não basta dispor de um bom computador com conexão de banda larga; isso é condição para a entrada no ciberespaço. É igualmente necessário promover o letramento digital, imprescindível ao exercício da cidadania contemporânea.

No extremo oposto está a educação totalmente digital, mediada exclusivamente por tecnologias digitais, sem que estudantes tenham acesso a professoras/es humanas/os. Essa é a configuração típica de cursos online massivos e de alguns cursos a distância em nosso país até 2025. Quem defende esse modelo de educação prioriza a redução de custos e a maximização de lucros em detrimento da qualidade da formação.

Educação sem professoras/es

Fonte: dos autores, ilustração de Mônica Lopes

Uma educação sem professoras/es impõe desafios à aprendizagem das/os estudantes, especialmente pela ausência de interação social, empatia e envolvimento afetivo, fatores que podem levar à desmotivação e à evasão. Nesse modelo educacional, a ênfase recai sobre a assimilação de conteúdos, negligenciando as subjetividades das/os estudantes, suas singularidades, conhecimentos, interesses e experiências de vida. Ao substituir professoras/es e colegas de turma por uma educação totalmente digital, perde-se a oportunidade de aprender a negociar sentidos coletivamente e de se constituir pela diferença com a/o outra/o. A presença de um/a professor/a humano/a e o convívio com uma turma ampliam as possibilidades de interatividade, conversação, coautoria, colaboração, experiências compartilhadas, relações sociais, vínculos afetivos, convivência com as diferenças e a diversidade de pontos de vista — elementos essenciais para o desenvolvimento do pensamento crítico, da criatividade e da tecedura de conhecimentos.

Além disso, a ausência de professoras/es no processo educacional pode facilitar o controle ideológico e a manipulação das informações trabalhadas com as/os estudantes, atendendo aos interesses de determinados grupos. A mediação humana na tecedura do conhecimento pode alertar para esse problema e apoiar as/os estudantes na atribuição de sentidos às informações que acessam na vida cotidiana.

Reconhecemos que a educação em nosso tempo precisa assumir uma configuração híbrida, que valorize tanto os momentos presenciais quanto os online, assim como a atuação conjunta de professoras/es e de tecnologias generativas como mediadoras/es do conhecimento. O objetivo é criar experiências de aprendizagem ainda mais dinâmicas, contextualizadas e engajantes, em sintonia com as exigências da sociedade contemporânea.

Educação híbrida

Fonte: dos autores, ilustração de Mônica Lopes

A educação híbrida também apresenta alguns desafios, como os custos envolvidos na criação e manutenção de uma infraestrutura física e tecnológica adequada, além da necessidade de promover a formação inicial e continuada de professoras/es para o uso pedagógico das tecnologias digitais em rede. Uma formação que inclua a vivência de estratégias didático-curriculares que mobilizem as tecnologias digitais, incluindo as generativas, para promover atividades autorais e colaborativas, ampliar os espaços de conversação e interatividade, potencializar os letramentos digitais e ciberculturais, entre outras ações. Apostamos em uma educação híbrida que reconheça docentes e estudantes como sujeitas/os situadas/os culturalmente, críticas/os, criativas/os, autoras/es em suas práticas e inventivas/os na criação de situações didático-curriculares, com e sem o uso de tecnologias digitais.

As três configurações de educação — sem tecnologias digitais, sem professoras/es humanas/os e híbrida — têm nos ajudado a refletir sobre as tensões, os riscos e as potencialidades das tecnologias generativas no processo formativo. Com as reflexões apresentadas neste livro, esperamos ter contribuído para ampliar a compreensão sobre as implicações e teorizações do uso pedagógico da IA generativa. Que possamos, juntas/os, construir uma educação mais inovadora, inclusiva e humana, tendo as tecnologias generativas como aliadas nos processos de aprender e ensinar. O futuro da educação está sendo escrito agora, e todas/os nós somos coautoras/es dessa transformação.

 

Uma técnica não é nem boa, nem má (isto depende dos contextos, dos usos e dos pontos de vista), tampouco neutra (já que é condicionante ou restritiva, já que de um lado abre e de outro fecha o espectro de possibilidades). Não se trata de avaliar seus “impactos”, mas de situar as irreversibilidades às quais um de seus usos nos levaria,  de formular os projetos que explorariam as virtualidades que ela transporta e de decidir o que fazer dela. Contudo, acreditar em uma disponibilidade total das técnicas e de seu potencial para indivíduos ou coletivos supostamente livres, esclarecidos e racionais seria nutrir-se de ilusões. Muitas vezes, enquanto discutimos sobre os possíveis usos de uma dada tecnologia, algumas formas de usar já se impuseram. Antes de nossa conscientização, a dinâmica coletiva escavou seus atratores. Quando finalmente prestamos atenção, é demasiado tarde… Enquanto ainda questionamos, outras tecnologias emergem na fronteira nebulosa onde são inventadas as ideias, as coisas e as práticas. Elas ainda estão invisíveis, talvez prestes a desaparecer, talvez fadadas ao sucesso. Nestas zonas de indeterminação onde o futuro é decidido, grupos de criadores marginais, apaixonados, empreendedores audaciosos tentam, com todas as suas forças, direcionar o devir. (Lévy, 1999, p. 26-27)

 

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