Apresentação: Tensões disparadas pelo uso da IA generativa na educação

O ChatGPT, lançado pela empresa OpenAI em novembro de 2022, estarreceu a sociedade. Se você ainda não o conhece, precisa experimentá-lo: acesse-o pelo site <https://chatgpt.com> ou instale o aplicativo. Após o cadastro, faça algumas perguntas (prompts): Quem é você? Quais são suas potencialidades pedagógicas? Que atividades didáticas podem ser realizadas com o seu uso? Quais os riscos que você representa para a educação? Como a educação será transformada a partir de sua popularização? Essas são questões que buscamos responder neste livro, sendo interessante comparar nossas respostas com as do ChatGPT[1].

As tecnologias digitais já vinham reconfigurando as práticas de aprendizagem e ensino, mas agora iniciamos uma nova era, a da Inteligência Artificial (IA) generativa. No início, preferimos chamá-la de “criativa”, para ressaltar sua capacidade de criar conteúdos. No entanto, essa caracterização é controversa, pois a IA gera novos conteúdos a partir dos padrões que aprendeu ao processar um vasto volume de dados, o que, para algumas pessoas, não se configura como criação nem criatividade. Há quem diga que a IA sequer poderia ser caracterizada como inteligente. Enfrentaremos essas discussões ao longo deste livro.

Ambivalência da IA generativa na educação
Ambivalência da IA generativa

Fonte: dos autores

No contexto educacional, a IA generativa tem provocado compreensões antagônicas, ambivalentes e conflitantes. Algumas/uns docentes consideram que as tecnologias generativas contribuem para a formação de sujeitas/os acríticas/os, preguiçosas/os e desinteressadas/os, com um pensamento raso e simplista, praticantes da cultura do “copiar e colar”, sem fazer uma leitura crítica dos conteúdos que acessam e reproduzem. Outras/os, no entanto, consideram que essas tecnologias podem auxiliar na formação de sujeitas/os criativas/os, questionadoras/es, investigadoras/es e críticas/os, sem perder a dimensão do pensamento complexo, pois possibilitam o acesso a informações e diferentes pontos de vista, a partir do interesse da/o usuária/o, complexificando ainda mais o ato de conhecer.

Algumas/uns docentes temem que as/os estudantes entreguem suas mentes e vozes para a IA pensar e se expressar por elas/eles, fazendo pelas/os estudantes as atividades didáticas realizadas longe dos olhos cuidadosos de professoras/es e responsáveis. A prática do plágio não é novidade na educação, mas a IA generativa a levou a um novo patamar, pois gera textos coerentes e diferentes a cada vez que responde a uma mesma pergunta, o que torna difícil identificar se um texto foi escrito por uma pessoa ou gerado computacionalmente. “Que software posso utilizar para identificar se um texto foi gerado por IA?”; “Como evitar o plágio na minha disciplina?”; “Que tipo de atividade devo propor para que as/os estudantes não plagiem da IA?” Essas são algumas das perguntas recorrentes que temos ouvido de colegas docentes e buscamos responder neste livro.

Há docentes que ficam entusiasmadas/os ao conhecer o potencial da IA generativa para apoiar o processo de aprendizagem das/os estudantes. Supõem que ela será utilizada para ensinar conteúdos das diversas disciplinas, tirar dúvidas, cocriar textos e imagens, auxiliar na resolução de problemas, fornecer feedback sobre atividades realizadas pelas/os estudantes, entre outras possibilidades de uso acadêmico.

A IA generativa apresenta uma ambivalência: pode ser utilizada tanto para colar quanto para aprender. Seria reducionista caracterizá-la como estritamente boa ou má, pois ela representa, ao mesmo tempo, uma ameaça à educação como a conhecemos e uma potência para a inovação dos processos de ensino e aprendizagem — tudo depende de como nos relacionamos com essa tecnologia. Reconhecer a ambivalência da IA generativa, sem que isso implique contradição, possibilita-nos compreender que precisamos promover uma educação para seu uso. Devemos evitar tanto a armadilha utópica, marcada por otimismo ingênuo, quanto a narrativa distópica, com seu pessimismo paralisante. O desafio é enxergar suas potencialidades, riscos e limites, para que possamos tecer conhecimentos sobre a IA em nosso mundo, mais especificamente no mundo da Educação. Precisamos inventar modos de habitar o mundo com ela, compreendendo o lugar dela e o nosso.

No artigo “O Manifesto para o Ensino e a Aprendizagem em Tempos de IA Generativa: Uma Posição Coletiva Crítica para Melhor Navegar no Futuro” (Bozkurt et al., 2024), várias/os professoras/es-pesquisadoras/es examinaram as possibilidades e os riscos da IA generativa no ensino superior. Buscando uma perspectiva equilibrada e crítica, reconheceram tanto aspectos positivos quanto negativos da IA, apresentados na figura a seguir.

Aspectos positivos da IA generativa
IA positiva

 

Aspectos negativos da IA generativa
IA negativa

Fonte: (Bozkurt et al., 2024, p. 491 e 498, tradução nossa)

Reconhecer a dualidade da IA generativa não significa considerá-la neutra, pois ela reflete visões de mundo que podem reforçar preconceitos existentes e marginalizar vozes diversas. Como toda tecnologia, carrega consigo os ideais de suas/seus criadoras/es, que optam por treiná-la com determinados dados em detrimento de outros. Além disso, potencialmente incorpora os vieses contidos nos textos e imagens utilizados em seu treinamento.

A IA generativa pode reconfigurar a educação de maneiras que, talvez, ainda não possamos antever. Será que seu potencial para promover a autoaprendizagem incentivará a implantação do homeschooling (ensino doméstico) no Brasil? Com a capacidade de gerar conteúdos em função dos interesses e conhecimentos de cada estudante, as tecnologias generativas podem atuar como tutoras digitais acessíveis e onipresentes, construindo trilhas de aprendizagem para que a/o estudante explore os conteúdos no próprio ritmo e de forma autônoma. Contudo, há receios de que a implementação do homeschooling em nosso país comprometa o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes, uma vez que a escola e a universidade desempenham um importante papel no letramento científico, na socialização, na promoção da diversidade, no convívio com a diferença e na construção de habilidades socioemocionais — aspectos que podem ficar comprometidos se a educação ocorrer exclusivamente em casa e com mediação apenas das tecnologias generativas.

Essas e outras preocupações foram disparadas em nós com o lançamento do ChatGPT, cuja existência suscita dúvidas sobre nosso presente e futuro. Como estudantes e docentes estão utilizando a IA generativa? Como ela influenciará nossos modos de pensar e tecer conhecimentos? Que subjetividades são produzidas pela interação com essa tecnologia? De que forma seremos agenciadas/os pela IA? Como o sistema educacional brasileiro será reconfigurado a partir de sua popularização?

Entusiasmados e com alguns receios, passamos a utilizar a IA generativa cotidianamente em diversas atividades, buscando compreender suas complexidades e implicações para a educação. Após as primeiras experiências, leituras e muitas conversas, produzimos alguns textos sobre nossas compreensões provisórias, que publicamos na coluna Educação da revista SBC Horizontes (Pimentel; Azevedo; Carvalho, 2023a; 2023b; 2023c; Pimentel; Carvalho, 2023a; Pimentel; Carvalho; ChatGPT-4, 2023), na revista Cult (Pimentel; Carvalho, 2023b) e em livros sobre essa temática (Carvalho; Pimentel, 2024; Pimentel; Carvalho, 2024). Também realizamos pesquisas empíricas sobre os usos das tecnologias generativas por estudantes e professoras/es, o que resultou em alguns artigos científicos (Carvalho; Pimentel, 2023; Pimentel; Carvalho; Silveira, 2024; Pimentel; Berino, 2025). Escrevemos para lidar com nossas inquietações em relação ao uso pedagógico da IA generativa. Construímos, desconstruímos e reconstruímos sentimentos e pensamentos, buscando produzir sentidos provisórios. Organizamos nossas ideias em textos para termos a impressão de que conseguimos compreender um pouco melhor esse fenômeno.

Com a popularização dos textos que publicamos, fomos convidados para encontros, debates e palestras sobre IA generativa e Educação. Participamos de dezenas de eventos, a partir de 2023, nos quais tivemos acesso a diversos pontos de vista de docentes-pesquisadoras/es engajadas/os e preocupadas/os com essa temática. Constatamos que essa tecnologia tem provocado inúmeras polêmicas, despertando fascínio em algumas pessoas e apreensão em outras.

Nossas publicações iniciais, as pesquisas empíricas e os eventos acadêmicos nos forneceram a base para escrever este livro. Reunimos os textos que já havíamos publicado, incluindo também trabalhos anteriores sobre tecnologias na educação, conversação e autoria (Carvalho; Pimentel, 2020; 2022; Pimentel; Carvalho, 2022). Revisamos, atualizamos e reorganizamos todo o material. Ao concluir esse primeiro rascunho, percebemos que ainda havia lacunas importantes que não havíamos coberto anteriormente, o que nos levou a novas pesquisas e à produção de textos inéditos para compor esta obra.

Neste livro, tecemos conhecimentos sobre os usos da IA generativa para a aprendizagem e o ensino, suas implicações para a educação e teorizações didático-pedagógicas. Embora o ChatGPT tenha sido a tecnologia generativa que disparou as reflexões aqui apresentadas, com o tempo ampliamos a discussão para as tecnologias generativas em geral.

Este livro está estruturado em três partes. Na Parte I – Usos e Implicações para a Educação, exploramos como a IA generativa está sendo integrada ao cotidiano educacional. Começamos discutindo o novo contexto sociotécnico, a era da IA generativa e suas implicações para a educação (Capítulo 1). Em seguida, analisamos a capacidade da IA de gerar respostas corretas para questões científico-educacionais (Capítulo 2). Debatemos se o uso da IA generativa em atividades escolares e acadêmicas configura uma trapaça (Capítulo 3); defendemos que a IA pode ser mobilizada de maneira ética e pedagógica, incentivando a autoria híbrida e a aprendizagem pela conversação. Apresentamos algumas possibilidades de uso das tecnologias generativas nas práticas acadêmicas, seja para aprender-estudar, ensinar, escrever, pesquisar ou imaginar (Capítulo 4). Investigamos como as/os estudantes estão utilizando a IA generativa em seus processos de estudo e aprendizagem (Capítulo 5), demonstrando que seu uso não se restringe ao plágio. Trouxemos as percepções e preocupações de docentes diante dessa nova realidade (Capítulo 6) e mapeamos diferentes perfis: negacionistas, temerosas/os, indiferentes, entusiastas e críticas/os. Por fim, encerramos a primeira parte do livro discutindo a necessidade de formação docente para o uso pedagógico da IA generativa (Capítulo 7).

Na Parte II – IA em Foco, abordamos a história e as técnicas de IA, para que possamos compreender melhor suas potencialidades e limitações, suas implicações e sentidos. Iniciamos com uma contextualização histórica dos desenvolvimentos das técnicas de IA que tornaram possíveis as tecnologias generativas (Capítulo 8), mostrando que são resultado de várias décadas de investimentos de pesquisadoras/es, empresas e governos. Em seguida, revelamos os bastidores do desenvolvimento da IA generativa (Capítulo 9) para evidenciar que ela não foi fruto do acaso nem é uma moda passageira: ela é resultado de muitos investimentos, uma complexa infraestrutura computacional e a atuação de diversas/os profissionais-pesquisadoras/es. Também enfrentamos o questionamento sobre se a IA pode realmente ser considerada inteligente (Capítulo 10), um debate que ganhou novo fôlego, pois sua habilidade de gerar discursos em diferentes línguas é percebida por algumas pessoas como uma ameaça à própria noção de humanidade. Estão sendo travadas discussões sobre consciência, inteligência, emoção, linguagem, criatividade e autoria da IA em contraste com as capacidades humanas. Há até previsões de que a IA superará a inteligência humana nos próximos anos, o que nos exige uma reflexão sobre o futuro da IA e seus possíveis impactos na sociedade e na educação (Capítulo 11). Em seguida, abordamos conceitos técnicos, como processamento de língua natural, inteligência simbólica versus inteligência estatística-conexionista, aprendizagem de máquina, modelos de linguagem e redes neurais (Capítulo 12) — noções necessárias para que possamos explicar o funcionamento das tecnologias generativas. Por fim, tratamos da Engenharia de Prompt (Capítulo 13), discutindo a importância dessa técnica para interagirmos melhor com a IA generativa.

Na terceira e última parte deste livro, Parte III – Teorizações, refletimos sobre a IA generativa e seus usos na educação. Começamos questionando a ontologia da IA generativa, o que ela realmente é (Capítulo 14). Compreendemos a IA generativa como uma entidade interlocutora e coautora. A partir dessa compreensão, discutimos a emergência do leitor generativo (Capítulo 15), noção que nos ajuda a entender como a conversação com a IA está transformando as práticas de leitura, pesquisa, acesso ao conhecimento humano e a tecedura de novos saberes. Discutimos, também, a noção de autoria híbrida humano-IA (Capítulo 16), que nos auxilia a compreender como as tecnologias generativas estão possibilitando novos processos criativos, ao mesmo tempo que levantam dúvidas sobre os limites éticos dessa parceria, especialmente na educação. Essas duas noções nos conduziram a uma reflexão sobre as diferentes concepções para o uso pedagógico da IA generativa (Capítulo 17). Analisamos o potencial pedagógico da IA como interlocutora (Capítulo 18), utilizada como se fosse uma especialista sempre disponível para explicar quase tudo e tirar dúvidas das/os estudantes. Também examinamos o potencial pedagógico da IA como coautora (Capítulo 19), atuando como parceira na produção de obras textuais, imagéticas e audiovisuais. Reconhecemos que, embora a IA generativa não seja uma máquina de ensinar (Capítulo 20), ela pode ser utilizada para a construção desse tipo de tecnologia, que implementa a “arte de ensinar sem professores”. Encerramos o livro com uma questão: qual é a educação que desejamos? (Capítulo 21).

Este livro é um convite à experimentação e à reflexão. Visando contribuir com a apropriação e a teorização didático-pedagógica da IA generativa, compartilhamos nossas experiências, questionamentos, dilemas, compreensões, lutas, medos e anseios — aspectos que nenhuma IA poderia ter escrito por nós. Contudo, para escrever esta obra, contamos com a parceria do ChatGPT para investigar alguns temas, obter respostas para algumas de nossas dúvidas, desenvolver ideias, analisar como ele escreveria sobre determinados assuntos, revisar nossos argumentos, redigir fragmentos e revisar todo o texto do livro. A obra foi extensivamente revisada com o ChatGPT, mas fizemos questão de que a versão final fosse revisada por um/a profissional de Letras, pois reconhecemos que a IA não substitui o trabalho humano. A IA não substituiu nossa autoria, mas os conteúdos gerados por ela nos ajudaram a tomar decisões sobre o conhecimento que queríamos tecer neste livro. Como resultado, esta obra é um produto da colaboração entre nós e o ChatGPT.

Assim como nos beneficiamos com a parceria que estabelecemos com uma tecnologia generativa para escrever este livro, muitos benefícios também podem ser obtidos por participantes do processo educacional, incluindo estudantes, professoras/es, gestoras/es, secretarias e governantes. No entanto, essa parceria envolve riscos, pois nem todos os usos da IA generativa são adequados. Por isso, precisamos promover uma educação para o uso das tecnologias generativas.

Diante do avanço inexorável da IA, não podemos mais ignorá-la, nem adotar posturas de otimismo ingênuo ou alarmismo pessimista. Precisamos compreendê-la criticamente, explorando suas possibilidades e enfrentando seus desafios. Nosso compromisso é com uma educação ancorada no presente, que saiba se apropriar da IA generativa para promover práticas formativas, éticas, reflexivas e inventivas, utilizando as tecnologias generativas com intencionalidade pedagógica.

_______________

[1] As respostas que o ChatGPT nos apresentou para essas questões estão em: https://chat.openai.com/share/74341d3c-3683-4bca-81cf-9c73648346cc. Ele responde um pouco diferente cada vez que perguntamos uma mesma coisa. Dois anos depois, ao finalizarmos este livro, voltamos a perguntar para o ChatGPT usando o modelo GPT 5-thinking (em vez do GPT 4) e as respostas foram estas: https://chatgpt.com/share/68cbfa0e-9c24-800a-bc89-6ed056d097a8.

Rolar para cima