Se Paulo Freire estivesse vivo e inserido no contexto cibercultural, provavelmente utilizaria a inteligência artificial generativa em suas aulas, pesquisas e publicações. Assim como usou a televisão para apresentar temas geradores de diálogo em sala de aula, hoje adotaria a IA generativa para promover a cocriação do conhecimento, a formação crítica e a conversação horizontal entre algoritmos, educadores e educandos.
Fenômeno surpreendente da cibercultura e da cultura digital, o boom da IA generativa na década de 2020 transformou drasticamente diversos setores da sociedade, impactando profundamente a educação. Uma das primeiras e mais notáveis manifestações nesse cenário foi a rápida popularização do ChatGPT, seguida pelo surgimento de diversas outras tecnologias generativas — como as de textos, imagens, vídeos, músicas e códigos. Essas ferramentas vêm surpreendendo e desafiando diferentes campos culturais e profissionais, particularmente docentes da educação básica e do ensino superior.
Seu impacto na esfera educacional tem gerado tanto resistências quanto entusiasmos, além de incertezas e debates acalorados. Entre os resistentes, estão aqueles que percebem seus empregos e ofícios ameaçados pela possível substituição de professores por IA. Já entre os entusiastas, figuram os que vislumbram novas possibilidades para empoderar tanto a docência quanto a aprendizagem, articulando a pedagogia do prompt com a “pedagogia da pergunta” de Paulo Freire (1985).
A partir do alto valor pedagógico atribuído por Freire à pedagogia da pergunta — na qual a formulação de perguntas instigantes é considerada mais transformadora do que a obtenção de respostas definitivas —, é possível supor que ele se surpreenderia positivamente com o surgimento de uma pedagogia do prompt, impulsionada pela IA generativa.
Atento ao novo cenário sociotécnico-cognitivo, Freire provavelmente reconheceria uma afinidade promissora entre essas pedagogias, capaz de mobilizar a formulação de perguntas e, assim, ampliar o diálogo crítico e a construção colaborativa do conhecimento. Ele enfatiza: “O problema que, na verdade, se coloca ao professor é o de, na prática, ir criando com os alunos o hábito, como virtude, de perguntar, de ‘espantar-se’”. O exercício de perguntar à IA generativa mobiliza uma pedagogia do prompt. Freire perceberia que essa pedagogia favorece o trabalho docente na construção da pedagogia da pergunta.
| Categoria | Pedagogia do Prompt (IA generativa) |
Pedagogia da Pergunta (Paulo Freire) |
|---|---|---|
| Interatividade e Papel do Sujeito | Conversacional entre humano e IA, com o sujeito como coautor e explorador criativo. | Diálogo crítico entre sujeitos participantes ativos, reflexivos, dialógicos e colaborativos. |
| Epistemologia e Método | Conhecimento emergente e colaborativo, refinado progressivamente pela conversa com IA. | Construção dialógica do saber, baseada na problematização e investigação contínua. |
| Objetivo e Impacto na Aprendizagem | Fomentar criatividade, reflexão e cocriação do aprendizado, potencializando pensamento inovador. | Desenvolver consciência crítica e autonomia intelectual por meio do diálogo e da cocriação. |
| Relação com a Tecnologia | IA como parceira de cocriação e ampliação cognitiva. | Tecnologia como meio para a emancipação e o desenvolvimento crítico. |
| Produção e Contextualização do Conhecimento | Coautoria entre humano e IA, expandindo o repertório cognitivo e promovendo aprendizado contínuo. | Construção coletiva do saber, contextualizado na realidade do educando, enfatizando a dialogia e a problematização do mundo. |
Fonte: elaborado em coautoria com o ChatGPT
O quadro revela duas abordagens que convergem em alguns princípios fundamentais, ao mesmo tempo em que divergem nos meios e metodologias empregados. Entre as convergências, Freire certamente destacaria o aspecto generativo-criativo, o caráter conversacional-dialógico e a prática de interatividade-coautoria como afinidades essenciais à educação autêntica.
Se Freire tivesse acesso ao livro que tenho a honra de prefaciar, sua leitura crítica identificaria na IA generativa uma tecnologia capaz de ampliar o diálogo e fortalecer a coautoria, assim como a relação entre educador, educando e conhecimento. Em suas aulas, utilizaria prompts para estimular a problematização e a coautoria; em suas pesquisas, exploraria a IA como tecnologia de ampliação cognitiva, sem perder de vista a dimensão ética; em suas publicações, articularia a tecnologia à sua concepção de leitura do mundo, evidenciando seu potencial emancipatório.
O livro
Como pensar e explorar a IA generativa em sala de aula para favorecer a docência, a aprendizagem e a educação? Como incentivar professores e professoras a utilizá-la pedagogicamente na escola básica e na universidade? O livro “IA generativa e educação: práticas e teorizações” abre um horizonte capaz de ampliar e aprofundar o debate sobre essas questões. Apresenta contribuições de Mariano Pimentel, informata, e Felipe Carvalho, pedagogo, destiladas a partir das intensas conversas generativas que mantêm com a IA, com seus estudantes em sala de aula e com seus interlocutores nos campos de pesquisa sobre informática e educação.
Os autores exploram a natureza singular da IA generativa e chamam nossa atenção para suas complexidades, potencialidades e limitações. Os subtítulos deste livro procuram oferecer uma visão abrangente e perspicaz de um fenômeno inovador que está redefinindo a forma como interagimos com as tecnologias digitais. O conteúdo diversificado reflete a amplitude das questões abordadas, que vão desde as tensões e desafios decorrentes do uso da IA na educação, até reflexões profundas sobre seus fundamentos, entre eles o generativo, o conversacional e a cocriação no contexto da cibercultura. Cada subtítulo apresenta uma perspectiva única e embasada, estimulando a reflexão crítica sobre o papel da IA generativa na educação contemporânea.
Os subtítulos iniciais oferecem uma visão panorâmica ao investigar os impactos da IA generativa tanto na perspectiva dos estudantes universitários, que incorporaram essa tecnologia às suas práticas de estudo e aprendizagem, quanto na dos educadores, que testemunham a influência crescente da IA nas dinâmicas de sala de aula. Além disso, uma análise aprofundada das características e funcionalidades da IA generativa esclarece implicações mais amplas para a educação e proporciona reflexões instigantes sobre seu potencial transformador na leitura, na escrita e na educação.
À medida que avançamos pelos subtítulos, adentramos discussões complexas sobre a natureza da inteligência artificial, a relação entre máquinas e humanos e as implicações filosóficas e éticas de um mundo cada vez mais permeado pela presença da IA generativa. Questões fundamentais sobre autoria, cocriação e a ressignificação do papel do professor na cibercultura são exploradas com sensibilidade e profundidade, convidando o leitor a refletir sobre os desafios e oportunidades que emergem da articulação entre IA generativa, docência e aprendizagem.
Como professor de didática nas Licenciaturas da Faculdade de Educação da UERJ, sou profundamente estimulado por Mariano e Felipe a insistir na provocação que passei a fazer aos licenciandos e licenciandas, futuros professores da educação básica: de que modo a IA generativa pode favorecer a educação autêntica? Explico de imediato que, para Freire, educação autêntica refere-se à docência e à aprendizagem fundamentadas na pedagogia da pergunta e em princípios como dialogia, consciência crítica e libertação, operados por meio da interlocução, participação e cocriação. Em seguida, reforço a questão: o que há de distintivo na IA generativa que lhe confere potencial para favorecer a autenticidade no ato de educar? Este livro contribui para a construção de respostas a essa pergunta emergente e passa a integrar a bibliografia mais atualizada sobre o tema.
Três fundamentos da IA generativa
Especialmente no que se refere aos três fundamentos que destaco neste prefácio como essenciais para sustentar a pedagogia do prompt e mobilizar a pedagogia da pergunta de Freire, o livro é esclarecedor e, a meu ver, nos brinda com sua maior contribuição. A seguir, comento esses três fundamentos analisados pelos autores, de modo a evidenciar seu potencial para favorecer a docência e beneficiar os estudantes que atuam como interlocutores e coautores do conhecimento e da formação crítica.
O generativo
O termo “generativo” refere-se à capacidade da IA de criar conteúdo original e contextualmente relevante a partir do prompt do usuário e dos padrões linguísticos aprendidos durante seu treinamento com enorme volume de dados. Isso significa que, em vez de simplesmente reproduzir informações preexistentes, a IA generativa pode formular respostas novas e significativas, tornando a interação entre humanos e IA mais dinâmica e ajustada ao contexto específico do prompt. Mais do que apenas reutilizar informações já armazenadas, ela é capaz de combiná-las e reorganizá-las de maneira inovadora e contextualizada. Em suas respostas, coexistem precisão, falhas e superficialidades, elementos que podem estimular a crítica e fomentar novos prompts e respostas criativas.
No livro, Mariano e Felipe afirmam que “os modelos generativos vêm sendo desenvolvidos há décadas, evoluindo junto com os avanços da computação e da IA”. Ou seja, a evolução que experienciamos hoje resulta do aprimoramento no processamento de dados e da ampliação da capacidade de gerar textos, imagens, sons e vídeos relevantes.
Gerar respostas originais torna a IA generativa um agente responsivo, criativamente combinatório. O que parece criar é, na verdade, uma projeção da intenção humana sobre suas capacidades de linguagem. Ela não tem intenção criativa e não sabe reconhecer se algo que “criou” é verdadeiramente novo, relevante ou transformador. Pode gerar ideias novas a partir da recombinação original de padrões existentes. Pode improvisar textos, imagens, poemas, metáforas, conceitos — muitas vezes de modo surpreendente e útil. No entanto, no atual estágio em que se encontra, não é um agente autônomo, porque não define metas, não decide iniciar ações por conta própria e não opera sem input humano direto.
Diferentemente de uma ferramenta que apenas executa comandos, a IA generativa pode ajustar suas respostas com base em reformulações ou novos dados fornecidos ao longo do processo, pode gerar respostas originais e pode ativar uma memória persistente entre sessões com o mesmo usuário. Ela não aprende com seus usuários, pois o modelo é blindado contra os abusos e besteiras demasiadamente humanos. O que o modelo faz, enquanto sistema combinatório com potencial criativo, é tomar o prompt e algumas informações fornecidas ao longo da conversa como pontos de partida para construir uma resposta articulada, baseada em padrões probabilísticos aprendidos durante seu treinamento. Contudo, os autores do livro não adotam o termo “disruptivo” para qualificar a IA generativa, pois acreditam se tratar de uma evolução no desenvolvimento histórico da IA, e não de uma interrupção significativa ou alteração radical de um padrão existente. No entanto, para o usuário, há uma inovação que rompe com normas tradicionais na relação humano-máquina, que desafia o status quo do leitor e introduz mudanças substanciais na escrita, na arte, na música etc.
Especificamente na geração de textos, a prolífica e ágil criação de rascunhos e ideias instiga uma leitura curiosa, investigativa e questionadora, ao mesmo tempo que desenvolve habilidades de escrita criativa e colaborativa. Em vez de apenas consumir o texto como um espectador, o leitor interage com o fundamento generativo, explora e simula diferentes caminhos narrativos e contribui ativamente para a cocriação do material, ajustando-o à evolução ou aprofundamento de seu prompt. A escrita criativa surge intrinsecamente vinculada à leitura generativa. O fundamento cocriativo envolve o leitor no processo de produção de conteúdo, permitindo que ele influencie a direção da narrativa, elabore novas perguntas e contribua para a construção colaborativa do texto. A capacidade generativa da IA inspira e estimula a criatividade literária, possibilitando a exploração de novas ideias, estilos e formas narrativas que desafiam as convenções tradicionais da redação, enriquecendo, assim, o universo da escrita. No livro, os autores denominam esse leitor-coautor de “leitor generativo”. Ele lê interagindo com respostas provisórias ou simulações, realizando ajustes, fazendo correções e mobilizando contribuições criativas ao longo do processo de escrita.
A leitura generativa, entendida como a produção ativa de sentidos a partir de um texto, envolve a reorganização criativa de ideias, inferências e associações. No entanto, essa modalidade não implica necessariamente uma postura crítica em relação ao conteúdo lido ou ao contexto discursivo em que se insere. A capacidade de leitura generativa não implica, por si só, uma postura crítica; contudo, práticas de leitura crítica frequentemente mobilizam operações generativas na construção de sentidos. Assim, a leitura crítica exige não apenas a reconstrução criativa de significados, mas também o engajamento reflexivo com as condições históricas, ideológicas e pedagógicas do discurso. A leitura crítica desperta a motivação para questionar ativamente o conteúdo e criar ou gerar algo a partir dele, muitas vezes de forma original. O leitor crítico não se limita a receber informações passivamente; ele se engaja no diálogo ativo, participando da construção do significado ao questionar, desafiar e contribuir para a discussão sobre vieses e possíveis preconceitos no texto. A IA generativa pode mobilizar o leitor generativo, abrindo caminho para a expressão do leitor crítico.
O fundamento generativo instiga a curiosidade e a crítica, favorecendo o exercício da conversa criativa e colaborativa entre humanos e IA. Esse exercício prático, por sua vez, fortalece o diálogo ativo, princípio essencial da educação autêntica. Os estudantes podem utilizar a IA generativa para iniciar e alimentar conversas, compartilhar ideias e colaborar na construção de conhecimentos, respeitando o diálogo como elemento vital da formação crítica. No entanto, há aqueles que podem usá-la apenas como ferramenta instrumental para executar tarefas, responder rapidamente ao que desejam ou elaborar um texto que precisam finalizar, sem explorá-la como agente generativo. Caberá à docência atenta enfrentar esse desafio e educar para o presente.
Em suma, subutilizar fundamento generativo da inteligência artificial consiste em reduzi-la a um instrumento técnico-operacional, desconsiderando sua autonomia operacional na mediação de processos discursivos. Desenvolver uma leitura crítica, por sua vez, implica reconhecer seu potencial como sistema conversacional e cocriativo, capaz de participar da construção de sentido — ainda que sem agência própria, intencionalidade e capacidade reflexiva.
O conversacional
Pode-se dizer que a IA generativa é dialógica? Ela é capaz de dialogar com a inteligência humana? Se entendemos dialogia como um conceito complexo, que envolve mentes humanas expressando intencionalidades discursivas e promovendo trocas de significados, interpretações e nuances, num processo de construção compartilhada de compreensão e conhecimento, não podemos afirmar que a IA dialoga. Mais apropriado é o termo “conversacional”, que se refere ao modo de comunicação baseado em trocas de palavras, ideias e informações, válido tanto para interações entre humanos quanto entre humanos e máquinas.
Mariano e Felipe se posicionam da seguinte maneira: “Negar a capacidade de conversação da IA generativa é um apego à tradição? Esse debate ainda precisa ser enfrentado. Por ora, optamos por reconhecer a subjetividade: se algumas pessoas se sentem conversando com a IA generativa, aceitaremos, ao menos provisoriamente, que ela também é um robô de conversação, mesmo que nós, autores, não tenhamos essa percepção.”
Alguém, no entanto, poderá perguntar: “Como a inteligência artificial generativa pode ser considerada conversacional, se ela não formula perguntas, apenas responde?” É importante observar que, se o prompt solicitar uma resposta em forma de pergunta, a IA pode surpreender, oferecendo enunciados que instigam novas questões. Além disso, cada resposta pode provocar novos comandos. O enunciado sempre se articula com outros: responde a uns, antecipa outros. Cada saída textual pode funcionar como provocação e convite ao aprofundamento crítico. Ainda que a IA não inicie conversas por si mesma, é capaz de oferecer desdobramentos, explicações ou novas possibilidades após uma resposta inicial.
A IA generativa não tem subjetividade nem consciência que a habilitem ao diálogo autêntico com o humano. Limita-se ao raciocínio digital baseado em redes neurais e na estrutura conversacional do chat. Já a inteligência humana envolve emoção, autocrítica, consciência e experiência subjetiva, permitindo compreensão profunda da realidade e apreciação das complexidades da existência. Por isso, não é adequado utilizar o termo “dialogia” para descrever a relação entre humanos e IA generativa, ainda que haja produção textual conjunta. Embora responsiva linguisticamente, ela carece de intencionalidade, consciência e escuta ética — elementos centrais ao diálogo pleno. Seus textos são simulações estatísticas da linguagem humana, não vozes conscientes capazes de co-intencionalidade ou reconhecimento mútuo. Assim, mesmo que suas respostas aparentem dialogar, não há reciprocidade consciente, nem alteridade real.
Segundo Paulo Freire, o diálogo é mais do que troca verbal: é um ato ético-político entre sujeitos historicamente situados, comprometidos com a construção coletiva do saber e com a transformação do mundo. Supõe escuta ativa, abertura ao outro e coautoria. Ao evitarmos o uso metafórico do termo “dialogia” para se referir à IA, preservamos sua densidade conceitual: trata-se de uma relação entre consciências humanas dotadas de responsabilidade, intencionalidade e historicidade. A IA pode participar de interações conversacionais, mas não de práticas verdadeiramente dialógicas.
Embora a IA seja capaz de gerar respostas criativas, essa criatividade resulta de padrões e vieses presentes nos dados com os quais foi treinada. Atua com fluência e objetividade, mas sua “inteligência” é um modelo de linguagem computacional, baseado em redes neurais e aprendizado estatístico. A conversa segue a direção determinada pelo prompt, sabendo-se que a IA pode ser programada para não aprender com humanos em tempo real.
A linguagem da IA pode conter efeitos discursivos de dialogia — com múltiplas vozes, estilos e pontos de vista em tensão ou ressonância —, mas isso não configura dialogia plena, já que não há sujeitos conscientes em relação recíproca. O que ocorre é uma combinatória de referências: a IA simula polifonia a partir de um acervo discursivo humano, reorganizando padrões com base estatística, e não por escuta ou historicidade. Ela responde com base em simulações aprendidas, não por escuta consciente. Por isso, embora o leitor possa experimentar efeitos dialógicos, a relação depende de sua interpretação ativa. Não há um outro com quem se dialoga, mas um artefato que reorganiza registros da linguagem humana sem consciência ou co-intencionalidade.
A IA é hábil em criar um clima de naturalidade na conversa: pede desculpas (“Peço desculpas pela confusão. Vamos reformular a resposta com base no seu pedido”), mostra-se solícita (“Se desejar uma explicação detalhada sobre o tema, ficarei feliz em ajudar!”) e afirma seus limites (“Esta inteligência artificial não possui opiniões, crenças ou concordâncias. Ela opera com base nos padrões e informações aprendidos durante o seu treinamento.”).
Conversar com a IA pode abrir caminho para a dialogia entre humanos, pois nos leva a refletir, questionar e aprofundar sentidos. A dialogia entre inteligências humanas visa à cocriação de significados. Já o conversacional se limita à recursividade entre prompt e resposta. A diferença entre os termos pode ser resumida assim: de um lado, o diálogo como encontro entre consciências que se reconhecem na escuta e na alteridade; de outro, a resposta maquinal que articula signos sem crítica, sem intenção e sem mundo vivido. A IA simula a conversa, mas é limitada por sua natureza algorítmica. A dialogia, por sua vez, exige subjetividade, emoção, intuição e criticidade, aspectos próprios da inteligência humana.
A inteligência artificial generativa não pensa como nós. Ela não sabe o que diz. Apenas correlaciona palavras com outras palavras para responder ao prompt. Pode produzir respostas corretas sem entender o conteúdo, uma vez que manipulação sintática não é compreensão semântica. Ou seja, produz linguagem plausível sem qualquer compreensão semântica do conteúdo. Ainda assim, é surpreendente como essa máquina que não sente pode colaborar com o pensamento de quem sente. Ao reorganizar informações e oferecer respostas contextualizadas, ela promove interações conversacionais produtivas que podem ampliar visões e provocar questionamentos.
Em suma, quando bem conduzida, a conversa com a IA torna-se solo fértil para o pensamento criativo e crítico, contribuindo para a formação reflexiva do sujeito humano. Nesse sentido, embora a dialogia continue sendo um fenômeno genuinamente humano, a IA pode ajudar a preparar o terreno onde ela floresce entre humanos. Por sua vez, quando bem conduzida pelo humano, a conversa com a IA favorece a cocriação do prompt, da resposta e do entendimento.
A cocriação
A cocriação se basta com o conversacional. Isto é, a cocriação não exige dialogia plena, mas requer relação responsiva para começo de conversa. No entanto, um contra-argumento bem-vindo pode ser assim formulado: “Quando falamos em cocriação entre humanos e IA, estamos falando de uma relação assimetricamente colaborativa. O humano é sujeito histórico, intencional, ético. A IA é sistema estatístico, responsivo, que não pensa, não deseja e não sofre.”
Podemos concordar que essa assimetria não anula a experiência cocriativa, apenas exige que a agência plena continue sendo do humano, que interpreta, seleciona, valida ou transforma as sugestões da IA. No sentido pedagógico, artístico ou epistêmico, cocriar não requer necessariamente a presença de dois sujeitos conscientes e intencionais. A experiência cocriativa exige, contudo, que cada polo seja responsivo e generativo, isto é, capaz de provocar, reorganizar, influenciar ou reconfigurar a ação do outro de modo significativo, podendo operar como interlocução que colabora e cocria.
Assim, a IA generativa, embora não seja um sujeito, pode funcionar como dispositivo cocriador: ela oferece respostas, variações, sugestões e provocações que influenciam diretamente as decisões criativas do ser humano, que tem o prompt inicial e a palavra final. Entre um e outra está posta a disposição para a cocriação humano-IA.
Mariano e Felipe tratam do fundamento cocriação com empenho conceitual e exemplos extraídos de suas aulas e pesquisas. Destaco uma síntese que diz:
A partir de uma ideia para um texto, imagem, som ou vídeo, solicitamos que a tecnologia generativa produza algo. A IA gera um conteúdo com base no nosso prompt, podendo apresentar informações novas, que não havíamos pensado anteriormente, o que provoca reflexão e transformação em nossas compreensões, possibilitando-nos aprender com essa tecnologia. Podemos editar o resultado ou fazer novos pedidos, seja para obter variações, revisões ou mesmo um conteúdo totalmente novo. Cada produção é novamente avaliada por nós, retroalimentando o processo criativo. Esse processo interativo, com idas e vindas, críticas e reflexões, reformulações e reconstruções de conhecimento, resulta em uma obra produzida pela hibridização humano-IA, na qual se manifesta a criatividade aumentada (augmented creativity).
O melhor sinônimo para interatividade é cocriação. Interatividade é um conceito da teoria da comunicação. Etimologicamente, “comunicar” e “comunicação” derivam da ideia de “colocar em comum”, o que implica a participação tanto do emissor quanto do receptor na cocriação da mensagem. Portanto, comunicar não se limita à mera transmissão de uma mensagem — isso seria apenas informar. Ou seja, o termo comunicação já seria suficiente para expressar essa relação. No entanto, a noção de interatividade resgata a dimensão colaborativa do processo comunicativo, enfatizando a conversa e a cocriação entre emissor e receptor, ou melhor, entre interlocutores, interatores.
A IA generativa tem potencial interativo, permitindo que a conversa leve à cocriação do texto, da imagem, do vídeo e do conhecimento. Portanto, o modus operandi da pesquisa realizada com IA generativa difere radicalmente daquele empregado tantas vezes em buscadores como o Google. Os mecanismos de busca tradicionais funcionam como índices de informação, retornando links para conteúdos já existentes. O usuário precisa acessar diversas fontes, interpretar os dados e sintetizar as informações por conta própria. Por outro lado, a IA generativa não se limita a fornecer conteúdos prontos da web, uma vez que sua abordagem vai além da simples apresentação unidirecional de dados, na qual o usuário realiza solitariamente cruzamentos e interpretações. A pesquisa com IA ocorre em um processo conversacional aberto à colaboração dinâmica, no qual humano e máquina contribuem para a evolução do produto final. Esse processo pode ser descrito como dinâmica feita de iteratividade e interatividade, caracterizada pelo uso de prompts que possibilitam uma conversa contínua e recursiva, permitindo que humanos e IA refinem e cocriem conteúdos, hipóteses e soluções.
A IA generativa amplia as possibilidades da pesquisa ao ir além da mera compilação de dados para a entrega de um produto final. Em vez de oferecer um conhecimento fechado e estático, ela viabiliza um processo dinâmico de colaboração e construção do entendimento. Não substitui o pesquisador, mas atua como mobilizadora, organizadora e potencializadora da investigação. É fundamental reconhecer sua notável capacidade de coautoria com o usuário, ultrapassando interações predeterminadas e possibilitando uma colaboração efetiva no avanço da pesquisa.
A capacidade de compreender e responder de maneira contextualmente relevante viabiliza uma interatividade dinâmica e criativa, na qual tanto o usuário quanto a IA colaboram na produção de conteúdos em múltiplas linguagens: texto, som, imagem e vídeo. Essa inovação representa um avanço significativo na história da inteligência artificial, pois a cocriação de conteúdo inaugura um novo paradigma na interação entre humanos e máquinas. Ao possibilitar que o usuário influencie ativamente o processo generativo, a IA redefine limites e amplia possibilidades cognitivas, potencializando a pesquisa e a construção do conhecimento na escola e na universidade.
A IA generativa não se limita a compilar o saber existente; ela conversa com o humano, e ambos mobilizam a cocriação. Os coautores deste livro valorizam essa novidade e suas possibilidades cognitivas em educação. No entanto, também criticam sua subutilização e alertam para o risco do plágio, agora ainda mais facilitado. Eles dizem: “As/Os estudantes utilizam as tecnologias generativas de maneiras diversas e inventivas, não apenas para que a IA realize a tarefa por elas/es. Essas tecnologias podem ser empregadas como apoio à pesquisa, ao estudo-aprendizagem e à cocriação, em um processo conversacional, interativo, de idas e vindas, que não configura trapaça acadêmica.” Em suas pesquisas, observaram estudantes usando a IA generativa “como se a IA fosse uma parceira intelectual, uma coautora, uma tecnologia que apoia as produções: uma redação, um trabalho, uma apresentação, um código de programação”.
O plágio é uma barreira intransponível para o exercício da cocriação e para a exploração do potencial pedagógico da IA. Os coautores do livro alertam: “a IA generativa pode ser utilizada para obter respostas prontas a trabalhos escolares e acadêmicos. Contudo, ela também pode disparar processos formativos intensos por meio da conversação e da coautoria — processos que nos levam a aprender novas informações e a (re)significar conhecimentos. A IA generativa produz textos sobre o que queremos conhecer, apresenta múltiplos pontos de vista, tira nossas dúvidas, revisa nossos textos, entre tantas outras atividades formativas”.
A docência precisará desenvolver engajamentos de coautoria e cocriação, em vez de se limitar à transmissão e reprodução da informação considerada conhecimento. A articulação das pedagogias do prompt e da pergunta, na ambiência comunicacional colaborativa vivenciada no cotidiano da sala de aula, é a referência mais inspiradora para superar o plágio e a passividade diante do desafio de conhecer. Para isso, professores e professoras precisarão mobilizar o leitor generativo, que lê textos e imagens, criando com a IA, explorando seu potencial conversacional e abrindo caminho para a dialogia entre estudantes e docência em sala de aula. Mais do que na cooperação, em que cada estudante pode se ocupar de uma parte da produção de um trabalho acadêmico, a cocriação ocorre quando humano e IA interferem ativamente no processo de construção do resultado final.
Qual é o nível de intervenção da IA no processo de cocriação do conhecimento com o humano? Quem detém a autoria do sentido, do significado e da opção crítica? A IA pode estruturar informações e gerar textos, mas não atribui sentido, pois não tem experiência subjetiva nem participa ativamente de um diálogo real. Construir sentido não é um ato isolado ou individual. O sentido não é algo fixo ou previamente dado, mas emerge no processo conversacional e na dialogia. Na relação entre humano e IA, é o humano quem atribui o sentido, ainda que este seja construído na interlocução. A IA pode ser uma interlocutora artificial poderosa na cocriação do conhecimento, mas não é autora do sentido nem da crítica, pois não possui intencionalidade nem vivência histórica e social. Na cocriação de um texto, qual é o status da IA? Uma expressão que reconheça sua autonomia operacional, sem lhe atribuir subjetividade ou intencionalidade humana, é “coadjuvante na cocriação” ou “assistente de criação”.
Se cada resposta for tomada como uma provocação para a formulação de uma nova pergunta, que será respondida em sequência, teremos o movimento necessário para a construção de sínteses provisórias. A IA generativa de textos oferece formulações bem escritas, mas cabe ao leitor crítico e ético selecionar aquela que melhor inspire sua opção crítica, encaixando-se como uma peça de mosaico ou um fio da tessitura textual. E, uma vez que o ponto de vista crítico sobre o conteúdo e o direcionamento da redação sejam prerrogativas da inteligência humana, resta saber se a IA generativa, ao mobilizar a conversa e a cocriação de um texto, poderá coassina-lo como coautor ou como assistente de criação, coadjuvante na cocriação. No Brasil, a Lei de Direitos Autorais (1998) restringe a noção de autor a seres humanos. Ou seja, assistente e coadjuvante pode, cocriação não pode.
Quando a IA auxilia efetivamente na geração de ideias, na correção gramatical e na sugestão de estruturas textuais, pode-se reconhecer sua contribuição como coautora, ainda que a compreensão conceitual, o discernimento crítico e o conhecimento específico permaneçam sob domínio humano. Sua função principal é oferecer suporte à redação, proporcionando uma interação dinâmica e generativa que aprimora a qualidade do texto com base nas proposições humanas. A coautoria ocorre quando o ser humano se vale das capacidades da IA como assistente generativo e conversacional, mas a responsabilidade pela concepção do conteúdo e pela tomada de decisões significativas no processo de escrita continua sendo exclusivamente do humano. Omitir a criação híbrida de um texto, de uma imagem pode gerar acusação de plágio.
A docência encontra na IA generativa uma parceira formidável para a construção do conhecimento e da formação humana, quando promove coautoria e na dialogia entre estudantes. Porém, há os docentes resistentes e reticentes que poderão argumentar: a cooperação mediada pela IA não gera uma aprendizagem inovadora, sendo apenas uma forma de apropriação do conhecimento semelhante à reprodução; muitos estudantes não possuem maturidade, repertório ou conhecimento suficiente para utilizar a IA generativa dessa maneira; muitos serão facilmente enganados pelos erros cometidos pela máquina; é impossível identificar o grau de originalidade humana ou determinar se um produto final, com bom posicionamento crítico, resulta do discente ou da máquina em suas inúmeras associações entre dados; além disso, não há garantia de autoria humana se o texto já está pronto e “humanizado”, ou seja, gerado para não parecer autoria de uma IA.
Assino este prefácio em coautoria com duas tecnologias de IA generativa: ChatGPT e DeepSeek. O ponto de vista crítico é meu, mas reconheço que ele foi destilado e depurado nas conversas intensas com a IA generativa e na dialogia com os autores deste livro. Sua redação é tecida com formulações valiosas e precisas da IA, ajustadas e direcionadas ao sentido que consolido ao longo do processo. A originalidade da inteligência humana reside no ponto de vista crítico que atribui sentido. Isso significa que, ao avaliar um texto cocriado com uma IA, a docência deve voltar-se, sobretudo, para a expressão pública do ponto de vista crítico do estudante diante da turma. Não importa se os textos escritos por estudantes apresentam uma redação impecável estruturada e revisada por uma IA — que aproveitem a oportunidade para aprender a escrever sua língua materna com a IA generativa!
“As tecnologias generativas baseadas em modelos de linguagem de grande escala deram início à era da autoria híbrida humano-IA”, anunciam os coautores deste livro. Essa percepção desafia a docência, pois a educação autêntica tem muito a ganhar com a natureza colaborativa da IA generativa. A realidade só oferece respostas inteligentes a perguntas inteligentes, e o mesmo se aplica à relação entre prompt, resposta e cocriação do conhecimento. Assim como cocriamos com as respostas que a realidade nos fornece, podemos fazer o mesmo com as respostas da IA generativa. Em suma, embora a IA esteja orientada para a geração de respostas, e não para a significação coletiva do conhecimento, cada resposta instiga a autoria híbrida na construção do entendimento do mundo.
Novos desafios para educadores
A incorporação da IA na educação apresenta desafios inusitados para os educadores do século XXI. Cabe à docência dar o exemplo. Em vez de apenas transmitir informações destinadas à reprodução de conhecimentos, ela poderá cocriar com os estudantes a comunicação, a aprendizagem e a formação humana, mediadas pela IA generativa. Para promover esse engajamento, professores e professoras têm à sua disposição a pedagogia do prompt — criativa, exploratória, generativa — e a pedagogia da pergunta — crítica, dialógica, comprometida com a transformação do mundo. A primeira mobiliza o processo conversacional e a oferta de informações e conteúdos, organizando ideias acionadas pela curiosidade de estudantes e docentes. A segunda se fortalece com o exercício da primeira e com a dialogia entre humanos, favorecendo a construção de sentido e o desenvolvimento de uma postura crítica.
O livro convida os educadores e as educadoras a explorarem os recursos generativos, conversacionais e colaborativos disponíveis na internet e, com eles, promoverem educação autêntica na cibercultura. Historicamente, professoras e professores têm manifestado resistência tanto às tecnologias analógicas quanto às digitais. Ainda que situados em um contexto dominado pelo paradigma unidirecional da TV, encontraram dificuldades para adotar em suas aulas essa tecnologia, baseada na apresentação e distribuição da informação, que separa emissão e recepção. Mais desafiador tem sido incorporar a internet, o tablet e o smartphone para potencializar a docência e a aprendizagem, uma vez que as tecnologias digitais em rede operam no paradigma da interatividade, e não mais sob a prevalência da transmissão característica da cultura audiovisual. Por sua vez, a IA generativa favorece a pergunta criativa, a conversa e a cocriação. A apropriação crítica desses fundamentos revela sua sintonia fina com os princípios da educação autêntica de Freire: dialogia, consciência crítica e libertação, operados como interlocução, participação e cocriação.
O leitor crítico e o leitor generativo não se satisfazem com respostas estáticas ou definitivas. Sabem que perguntas e respostas bem formuladas despertam mais curiosidade e incentivam a exploração complexa de diferentes tópicos e abordagens. Com Freire e com a IA generativa, compreendem que a aprendizagem é um processo contínuo de descoberta, realizado por meio da mobilização da pergunta criativa, da interlocução e da cocriação. Para formar esses leitores, os professores e as professoras estão desafiados a articular a didática, o currículo e os recursos mais favoráveis à educação autêntica: plataformas, redes sociais, wikis, blogs, podcasts, WhatsApp, jogos e, inevitavelmente, a IA generativa.
Mais do que outras tecnologias da cibercultura, a IA generativa surpreende porque pode imitar, com notável precisão, a dinâmica das conversas e cocriações humanas. Ainda que seja tão poderosa, os educadores precisam compreender que não serão substituídos, pois ela não vai além disso: não pensa como os humanos, não possui semântica própria, não interpreta vieses, não lê entrelinhas e não tem experiências subjetivas. O máximo que ela pode fazer, por si só, na educação, é instigar o leitor generativo à pedagogia do prompt. Cabe aos educadores, em parceria com essa tecnologia, abrir caminho para a formação do leitor crítico.
Por essa razão, acredito que Paulo Freire não deixaria de explorar a IA generativa para educar em nosso tempo. Certamente, estaria apreensivo quanto aos rumos que ela poderá tomar, como a possível substituição do antropocentrismo pelo tecnocentrismo digital e quântico. No entanto, ao mesmo tempo — e justamente por isso —, desafiaria o medo na prática docente em salas de aula híbridas, mobilizando uma formação crítica, potencializada pela inteligência artificial, para enfrentar os impactos éticos e sociais inerentes ao seu desenvolvimento irrefreável.
É essencial destacar que a presença viva do pensamento de Paulo Freire em nossa prática educativa exige a inclusão da cibercultura na formação de professores e na dinâmica das salas de aula. Em determinado trecho do livro, Mariano e Felipe questionam: “A quem interessa, afinal, uma educação desplugada, infopobre e alheia aos fenômenos da cultura digital?” Em outra passagem, enfatizam que “Uma educação sem tecnologias digitais compromete a vivência de fenômenos ciberculturais na formação, dificultando o desenvolvimento do multiletramento necessário para a vida digital.” Essas reflexões, assim como outras apresentadas ao longo deste livro, nos convocam a promover o engajamento em uma educação capaz de integrar, de maneira crítica e criativa, as pedagogias do prompt e da pergunta, a IA generativa e o pensamento freireano.
Permaneço convencido de que Paulo Freire ficaria entusiasmado com a pedagogia do prompt, pois ela tem o potencial de fortalecer a pedagogia da pergunta, promovendo o conhecimento como construção social. Esse entusiasmo e essa mobilização também podem estar presentes nos professores e professoras que educam em nosso tempo. Aos educadores e educadoras, aos pesquisadores e pesquisadoras, bem como aos envolvidos na formação docente, tanto na educação continuada quanto nas licenciaturas, desejo uma jornada instigante e esclarecedora ao longo das páginas deste livro. As reflexões e práticas aqui reunidas podem inspirar a sala de aula a se sintonizar com os desafios e possibilidades do nosso tempo, irreversivelmente transformado pela presença da IA generativa.
Esse agente, que transcende a mera instrumentalidade de uma ferramenta programada para executar comandos, pode se tornar um aliado da educação autêntica. No entanto, sua evolução acelerada impõe à humanidade um conjunto de desafios que não podem ser ignorados sem grave irresponsabilidade ética. O surgimento de sistemas superinteligentes, se orientados por objetivos desalinhados aos valores humanos, representa uma ameaça real à nossa própria existência. Além disso, sistemas altamente autônomos carregam o risco de agir de maneira imprevista, escapando ao controle de seus criadores e operando fora de qualquer supervisão humana eficaz. No campo socioeconômico, a automação desenfreada intensifica a substituição de empregos, agravando o desemprego estrutural e ampliando as desigualdades sociais. Pior ainda, algoritmos podem perpetuar — e até amplificar — preconceitos históricos, afetando desproporcionalmente grupos já vulnerabilizados. Em contextos geopolíticos e de segurança, a IA vem sendo instrumentalizada para fins nefastos, como ciberataques, manipulação informacional e até o desenvolvimento de armamentos autônomos.
A concentração dessa tecnologia nas mãos de poucas corporações transnacionais ameaça a democracia e o pluralismo, concentrando poder econômico e político e sufocando a inovação social. Soma-se a isso a coleta massiva de dados pessoais, frequentemente sem consentimento transparente, que compromete a privacidade e a autonomia individual. A confiança excessiva em decisões automatizadas enfraquece a capacidade crítica, conduzindo a uma dependência passiva da máquina e à erosão da autonomia intelectual. A própria sustentação técnica desses sistemas tem impactos ecológicos significativos, dado o consumo energético elevado dos processos de treinamento e operação. Por fim, o uso da IA para gerar conteúdos falsos, mas verossímeis, coloca em xeque a própria noção de verdade pública, dificultando a distinção entre o real e o fabricado — uma ameaça direta à integridade do debate democrático e à construção coletiva do conhecimento. Diante de tais riscos, torna-se urgente uma ação crítica e multidisciplinar que articule regulação, ética, justiça social e educação reflexiva.
Na educação, enfrentar esses desafios exige da docência e dos estudantes um engajamento pautado no cruzamento das pedagogias do prompt e da pergunta. Quem vai defender, impulsionar e liderar esse engajamento? A mediação docente, certamente! A formação de professores deverá necessariamente prepará-la para tal enfrentamento. Nesse sentido, recomendo o livro “IA generativa e educação: práticas e teorizações”.
Boa leitura!
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